LIVROS E BICHOS

Este é o blog da Tércia Montenegro, dedicado preferencialmente a livros e bichos - mas o internauta munido de paciência também encontrará outros assuntos.

domingo, 9 de setembro de 2012

Russel & Ripley

Continuo com a leitura dos surrealistas (e, de tanto ler autores franceses em edições de língua espanhola, percebo como é cada vez mais urgente que eu planeje uma viagem para a França...). Após René Crevel, escolhi Raymond Russel, cujo Locus Solus me faz lembrar As Hortensias, do Feliberto Hernández, que comentei há alguns dias. A mesma ideia de um lugar doméstico dominado por engrenagens bizarras, ou por fetiches absurdos criados por seus donos, impera nos dois livros. Ora, assim também é inevitável que eu recorde minha recente visita ao México, com o seu museu Ripley. Antes de embarcar para a terra de Frida Kahlo, deixei uma postagem, neste blog, sobre o jogo das coincidências que me atraía a conferir esse museu, obrigatoriamente. Depois, de maneira que considero imperdoável, silenciei sobre o assunto, e apenas alguns amigos próximos souberam do motivo: o museu me pareceu mais engenhoso do que mágico, feito para agradar a mentalidades juvenis. Surrealidade me parece coisa bastante séria, embora não deixe de ser engraçada, às vezes; o problema é tratá-la com um apelo promocional exagerado (coisa que esse museu certamente faz). Mas esqueçamos o infame lado comercial, para que as boas recordações retornem...Durante a visita, fiz uma lista de peças e informações curiosas. Acompanhem abaixo a síntese do acervo do museu Ripley:
- um fetiche xamã de mandíbula de cervo;
- sandálias chinesas, da dinastia Manchú (com a dimensão do pé feminino ideal, que não devia ultrapassar 6 cm!);
- ovos de avestruz (um único ovo pode alimentar 12 pessoas e sua casca serve para transportar água no deserto);
- pinturas feitas em teias de aranha;
- uma réplica da Mona Lisa feita com 64 fatias de pão tostado (acho que essa nem o Vik Muniz faria...Confiram na imagem abaixo)
- um vestido feito com cabelo humano (argh!);
- uma pintura diatômica (fique sabendo que os diátomos são algas minúsculas que se encontram nas gotas da água do mar!)
- um vinho de Hong Kong, feito com fetos de rata (aaargh!).
- a foto de um homem que nasceu com duas pupilas em cada olho.
Se essa coleção não for la crème de la crème do Surrealismo, eu não sei o que pode ser...Locus Solus, do Russel, traz uma narrativa que "passeia" por um ambiente semelhante ao do museu Ripley. Ficaram interessados?




sexta-feira, 7 de setembro de 2012

René Crevel

Acabei de ler (novamente em versão de língua espanhola, resultado de uma viagem a Buenos Aires, dois anos atrás) Babilonia, de René Crevel. O livro é um marco da prosa surrealista, mas não parece "descosturado" como Nadja, por exemplo. Neste romance, Crevel associa os absurdos à mentalidade de uma garotinha - e digamos que o vertiginoso surreal fica, por assim dizer, um pouco justificado. No decorrer da história, o relato vai se tornando mais e mais bizarro e engraçado, além de poético. Há passagens lindas, como esta que traduzo: "(...) amanhã cruzará a canícula uma mulher com um xale de vento. Será a forasteira no umbral das ruas. Seu companheiro, o pai, terá os olhos amarelos, como se estivessem feitos de um metal que não é ouro. Os farrapos colocados nas janelas, em honra a este casal, vão estalar com todas as suas cores, e o verão, por um dia, por um único dia que nunca poderão esquecer as meninas que o tenham vivido, o verão não suportará a mínima precaução de penumbra." (pp.106-7)
A vida de Crevel é outra história de exagero e dramaticidade. Não dá para resumir; quem tiver interesse, busque mais informações. E quem quiser, também, pode conferir os capítulos de uma obra sua, Mon corps et moi, na língua original. Vejam no site http://melusine.univ-paris3.fr/CrevelMonCorps.html

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Roberto e Felisberto

Acabei de ler As Hortensias, do Felisberto Hernández, na linda edição da Grua em parceria com a Editorial Yaugurú, uruguaia. A sensação de reviver o estilo deste autor tão singular, que eu havia conhecido com os contos de O cavalo perdido e outras histórias, foi ótima! E agora creio que consegui formular o que antes havia intuído: uma semelhança de atmosfera que lembra muito a literatura de Roberto Arlt. Não se trata de proximidade através de temas ou de linguagem; é uma espécie de visão de mundo que os dois autores partilham. Ambos conhecem os absurdos que se escondem na realidade e sabem narrá-los com total descontração e simplicidade, mas sem perder o bom toque de ironia. Estou mencionando uma impressão que me veio, e que não cheguei a ver corroborada em nenhum estudo, mas para mim isso é muito forte: Felisberto Hernández e Roberto Arlt são irmãos literários. Façam a experiência de ler As Hortensias e depois passem para Os sete loucos ou O lança-chamas, ou vice-versa. Vocês estarão no mesmo universo criativo. Não por acaso, os dois autores nasceram no princípio do século XX, em países vizinhos, de mesma língua. Se chegaram algum dia a se encontrar, para mim é uma incógnita - mas não preciso dessa certeza para colocá-los bem juntos, na biblioteca.

II Colóquio Cearense de Semiótica

Amigos,

Estão abertas, até o próximo dia 10, as inscrições para o II Colóquio Cearense de Semiótica, que vai acontecer nos dias 17 e 18 de setembro, na Universidade Federal do Ceará. O evento está sendo organizado pelo grupo Semioce e trará grandes pesquisadores da área, como o professor Sémir Badir, da Université de Liège, e os professores Ivã Carlos Lopes e Waldir Beividas, da USP, dentre outros. Quem gosta de semiótica greimasiana não pode perder! As vagas são limitadas! Veja mais informações no endereço http://ufcsemiotica.blogspot.com.br/

sábado, 1 de setembro de 2012

Nossa Cidade

Amigos,

Agendem: dia 15 de setembro estreia a peça Nossa cidade, com direção de Thiago Arrais. Ficará em cartaz sempre às 20 h dos sábados, no Passeio Público, até o dia 20 de outubro. Cliquem no cartaz abaixo para ampliá-lo.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Vida nova

Para Cecília, filha dos meus queridos amigos Sérgio e Roberta: que seja bem-vinda!

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Os músicos de Denver


OS MÚSICOS DE DENVER

Na sequência da viagem ao México, arrisquei-me pelos Estados Unidos somente para pisar em Denver, terra dos beats. Mas o grande motivo não era palmilhar trilhas de artistas boêmios e santificados pelo delírio aventureiro, como Kerouac. Eu pesquisara sobre um local esquisito, chamado The cage’s sounds, uma espécie de viveiro para aves adestradas, que ali interpretam artistas famosos. Cada pássaro imita um instrumento, conforme sua predisposição natural. Um deles, por exemplo, garante o som de trompete ao estilo de Andy Diagram, da clássica banda dos anos 80 The Pale Fontains. Há ainda guitarras idênticas às de Blixa Bargeld, do The Bad Seeds, além do baixo pulsante de Sooyoung Park, da Bitch Magnet, e piano igual ao de Keith Jarrett. Tudo isso em Denver, cidade mágica para os bichos musicais, quase como aquela outra, Bremen, da fábula milenar...
Com tanta propaganda, eu e o amado consideramos aquela atração irresistível. Chegamos bem cedo; The cage’s sounds mal havia começado a formar uma fila de espectadores diante da sala onde aconteciam as audições. O programa do dia anunciava um pássaro que imitaria o vocal sibilante de Jónsi, do Sigur Rós, por dez minutos, e em seguida um outro, disposto a fazer o som do baterista John Ribombayne, da banda Baú Metálico, por quinze minutos.
O sol estava a pino, e certamente iríamos esperar um bocado na fila, contando com o horário previsto e os naturais atrasos dos “artistas”. Aliás, eu começava a pensar nos detalhes daquele show – como seria convencer os pássaros a iniciar uma canção? Será que havia maestros dando a “deixa”, ou músicos humanos acompanhando o instrumentista principal? Sobretudo, eu me preocupava com o método de adestramento, inegavelmente torturante, com um bicho condenado a ouvir milhares de vezes certa música, até conseguir cantá-la. E quando ele errava, ou esquecia uma parte – o que o seu treinador fazia? Eu repassava mentalmente relatos de Skinner e Pavlov, sob o calor escaldante. Enquanto isso, dúzias de crianças corriam ou plantavam bananeira nas imediações; elas prometiam um público inquieto, entrando na sala junto com seus pais, aquelas duplas de americanos rosados, suando em bagas, sob chapéus e bonés.
Imaginei que era o efeito de uma desidratação alucinante, quando ouvi o amado dizer: “Vamos embora”. Afinal, era ele o principal interessado naquele espetáculo de homenagem musical; ele colecionava os vinis, pôsteres e versões de todos aqueles artistas, tocadas em aparelhos de som sensibilíssimos... Se havia alguém capaz de ouvir os pássaros e julgá-los em sua fidelidade sonora, era ele – e, de repente, estava desistindo? Por qual motivo? Achei que fosse ouvir algo sobre o calor ou o tempo de espera, mas o amado apontou um detalhe no programa musical. Ali estava a informação de que Ribombayne era inglês, e não irlandês, conforme fiquei sabendo. Um erro desse tipo punha tudo em descrédito – e assim deixamos Denver e seus pássaros, numa frustração de turistas que atravessam um deserto.

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo. Disponível também no respectivo site.)

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

M. Blecher

Amigos,

Por uma dessas confluências cósmicas e virtuais, eu estava vasculhando a internet à procura de traduções do  romance de M. Blecher, citado na postagem abaixo, e encontrei o blog do Fernando Klabin, brasileiro que mora na Romênia (e tem uma pousada em Draguseni) . Ali, achei a referência de versos do M. Blecher, traduzidos pelo Klabin, na Revista Literária em Tradução n° 1. Recomendo a leitura pelo site abaixo:
http://www.notadotradutor.com/revista1.html
Entretanto, eu ainda queria saber do romance! Decidi, portanto, escrever ao tradutor - e ele acaba de me informar que a tal obra sairá em 2013, pela Cosac Naify! Excelente notícia: M. Blecher reviverá em português! Comemoremos!
Em tempo: Fernando Klabin tem outras traduções do romeno que valem a pena demais. É o caso de No cume do desespero, do Cioran, que saiu pela Hedra e já vou encomendar...

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Sempre a mesma neve

Estou quase terminando de ler Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio, da Herta Müller, uma das autoras que para mim tem qualidade incondicional: mergulhar num livro dela é sempre garantia de aprendizado ou embevecimento estético. Esta obra, por exemplo: poderia ser apenas um apanhado de textos vários, reflexões sobre literatura e política reunidas num volume justificado pelo fato de que a escritora ganhou o Nobel. Mas, no caso da Herta, uma publicação dificilmente seria "raspa do tacho" com o único propósito de atender ao mercado. O que temos em Sempre a mesma neve... são testemunhos que oscilam do ficcional para a realidade, sem jamais cair na planfetagem - apesar de em inúmeros momentos a autora acusar diretamente a ditadura socialista de Ceausescu, o universal humano está presente em cada linha, e mesmo um leitor distante daquela experiência pode compreendê-la e se comover. Além disso, o livro traz momentos de "bastidores" da escrita de Depressões e Tudo o que tenho trago comigo, outras obras da Herta. É maravilhoso ver as circunstâncias que motivaram essas histórias, e isso não como simples curiosidade; a autora fornece verdadeiras lições de literatura, ao mostrar suas técnicas com o uso das metáforas. Como se não bastasse, nos capítulos de Sempre a mesma neve... ainda aprendemos sobre as línguas alemã e romena, e temos notícia de autores longínquos para o público brasileiro. É o caso de M. Blecher, com o seu Da irrealidade imediata, lamentavelmente nunca traduzido para nós (chuif!).

sábado, 18 de agosto de 2012

Dia da fotografia


Duas imagens de um dos meus artistas preferidos: Avedon.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A casa de Kahlo




A CASA DE KAHLO*

Já comentei na crônica anterior, quinze dias atrás, que a Cidade do México é um esplendor em museus – mas, em meio a tantas opções, a Casa Azul (que era residência da pintora Frida Kahlo) ainda se destaca. Faz toda a diferença andar por um ambiente que foi habitado pelo próprio artista, mesmo que na maior parte dos espaços hoje se perceba um “arranjo” artificial, criado para expor os objetos, e não mais para desfrutar deles. Na verdade, o único aposento que parece ter sido realmente mantido, em composição e atmosfera, é o estúdio onde Frida pintava. Uma placa na parede confirma o pressentimento: todos os móveis, com estantes de livros, cavalete, espelho, estão ali exatamente como no passado. Vemos os pincéis e as tintas (guardadas em frascos de perfume), tudo paralisado numa expectativa inútil – e a cadeira de rodas, um corpete que Frida usou, depois de várias cirurgias... O ateliê vibra de luz e dor, com janelas abertas para o jardim.
A essa altura do percurso, passamos pelos quadros e desenhos famosos, vimos a lareira que Diego Rivera mandou construir para a sala principal e descobrimos um acervo de ex-votos pintados em chapas de alumínio, que se mandava fazer pelo alcance de uma graça. Frida colecionava essas relíquias de arte popular, assim como também guardava inúmeras bonecas numa escrivaninha. Cada quarto estava repleto de gente, turistas lentos e silenciosos, provavelmente tão impressionados quanto eu. Porque é quase um ato profano, ingressar na intimidade doméstica de quem se admira e não se conhece – ainda mais em outra época, póstuma. Frida não tem como fechar as portas, defender-se do olhar invasivo de estranhos que sondam sua existência talentosa e trágica. Sua presença ronda os objetos que lhe sobreviveram, está fragmentada na memória de todas estas peças – mas ao mesmo tempo se distorce, com a lojinha de souvenirs e a escultura dela e Diego como esqueletos, num senso de humor bizarro. São as exigências do turismo, dirão alguns, e eu não posso negar. Estes elementos lembram que a Casa Azul, afinal, não é mais uma casa...
Talvez o verdadeiro refúgio de Frida, o núcleo onde ela ainda se mantém discreta e preservada, esteja no último quarto. Em meio à mobília e tantos acessórios de decoração, sobre uma mesa está sua urna funerária, em formato de sapo. Os antigos mexicas acreditavam que este animal tinha comunicação direta com o inframundo, por sua capacidade anfíbia – mas há outra explicação válida. Diego Rivera, marido de Frida, também era conhecido pelo apelido de sapo, por sua aparência gorda, de olhos saltados. Para as cinzas de uma mulher que viveu sempre desconfortável no próprio corpo, não pode haver descanso melhor que uma urna no formato do homem que ela amava.

Tércia Montenegro (escritora, fotógrafa e professora da UFC)
* Crônica  publicada hoje no jornal O Povo. Disponível também no site respectivo.

sábado, 11 de agosto de 2012

Tércia na África - texto de José Castello

Amigos, ontem saiu no jornal O Globo, na coluna do crítico José Castello, este artigo sobre o meu livro O tempo em estado sólido. Confiram clicando em cima do anexo, para ampliá-lo.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O fuzil de caça

Quando estou às voltas com uma obra japonesa, tenho sempre a sensação de uma atmosfera frágil, cheia de silêncio e contenção. É assim com qualquer livro do Akugatawa ou do Kawabata - para citar só dois dos mais famosos - e agora adiciono Yasushi Inoue à lista dos meus tímidos e profundos mestres do Japão. O fuzil de caça, na belíssima edição da Liberdade, traz uma história tão simples quanto emocionante, no ritmo sagrado que o ocidente nunca alcança. É uma obra para ler e contemplar; só se pode apreciá-la em goles curtos e atentos, que combinem com sua pretensão delicada.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Tworki

Terminei ontem o poético e perturbador Tworki, do Marek Bienczyk, que traz o subtítulo de El manicomio, na edição espanhola que tenho comigo. É surpreendente que ainda se encontrem novas formas de falar de um mesmo acontecimento - no caso, a tragédia polonesa (uma de suas tantas) frente ao nazismo. Marek inova ao concentrar a história no amor entre dois jovens, trabalhadores do hospício Tworki: Jerzy e Sonia passeiam de maneira quase lúdica pela atmosfera pesada de guerra, até que esta finalmente os atinge, com um paroxismo que não larga a subjetividade, apesar de uma guerra ser sempre coletiva. A opção estética deste livro é a marca que o faz inesquecível. Ao contrário do que pensam (e proclamam) certos midiáticos que não conseguem ir além da frase óbvia e massificante, o estilo em literatura é tudo; se algo pode virar acessório, é o conteúdo, não a linguagem.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O lugar dos deuses


O LUGAR DOS DEUSES

Atraída pelas palavras mágicas, tomei o caminho de Ecatelpec, para chegar a Teotihuacán. O México me ensinou que a arqueologia é uma prática de encantos: restaura o passado para ativar um tempo impossível, visível muito além da pedra, dos artefatos ou registros concretos. Esse tempo se consolida nas histórias, nos mitos que justificam as vidas e paixões dos povos.
Pois ali estava eu, num pedaço da Mesoamérica, entre suas pirâmides reconstruídas. Tentava escapar dos ambulantes que vendiam colares, flautas ou estatuetas em obsidiana, sentindo-me tão deslocada quanto qualquer turista em solo sagrado. Eu me concentrava nas narrativas, apesar de toda a agitação comercial – e houve um momento em que pensei ver, nos resquícios milenares daquela arquitetura, a justificativa para o nome: “lugar onde os homens se tornam deuses” – Teotihuacán, na língua náuatle.
Nesse idioma xamânico, também foi batizada uma raça de cães negros, com jeito de escultura. Os xoloitzcuintles, conforme a lenda, ajudavam seus donos a fazer a passagem para o além – daí o seu nome derivar da palavra “xolotl”, que indica o deus da morte. Vi alguns destes belos animais nos jardins do museu Dolores Olmedo. Lola, como era mais conhecida, foi uma grande mecenas da arte mexicana, e hoje sua casa guarda a maior coleção de quadros do Diego Rivera, que, aliás, criava xoloitzcuintles...
E por falar em pintores e museus, o México nesse ponto se torna um país para o êxtase. Além do Rivera, hiperbólico nos murais do Palácio Nacional e do Palácio de Belas Artes, temos Frida Kahlo, Nahui Olin e Remedios Varo, temos Orozco e Roberto Montenegro – sem contar as exposições internacionais, presentes em muitos espaços. Na literatura, pode-se lembrar Juan Rulfo e Carlos Fuentes, B.Traven e Octavio Paz, fora tantos outros artistas que não caberiam nesta crônica, ainda que ela se transformasse numa simples lista. Mas o México tem muito mais. A criação dos deuses palpita em sua atmosfera, nas ruas em que se apresentam músicos e dançarinos; no rosto de seus habitantes, que repetem feições ancestrais. Pelo metrô, passam dois milhões de pessoas por dia – e a maioria delas tem cabelo liso e olhos rasgados, um sorriso asteca.
Em Teotihuacán, eu compreendi a síntese de uma cultura quando, em meio ao passeio, como que para quebrar o sol inclemente sobre as pedras, caiu um verdadeiro dilúvio. Tudo aconteceu de modo tão repentino e brusco, que parecia um efeito cênico, descontrolado (a natureza se torna verossímil quando manda avisos, pequenas doses de desastre).
Sem maneira de se abrigar, as pessoas corriam em muitas direções. Algumas procuravam um teto inexistente, um toldo anexo às pirâmides. Como boa cearense, eu me alegrei com a água e fiz uma reverência a Tláloc, deus da chuva. Não foi dessa vez que ele exigiu sacrifícios, felizmente – e eu deixei o México no dia seguinte, com a alma vibrando de emoção.

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo. Disponível também no endereço http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/08/01/noticiasjornalopiniao,2889793/o-lugar-dos-deuses.shtml)
Abaixo, foto da imagem de Tláloc, diretamente do Museu de Antropologia do México: