LIVROS E BICHOS

Este é o blog da Tércia Montenegro, dedicado preferencialmente a livros e bichos - mas o internauta munido de paciência também encontrará outros assuntos.
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domingo, 15 de maio de 2011

O horror ingênuo


Este fim-de-semana foi reservado para os quadrinhos: mergulhei nas histórias do Will Eisner (com o Spirit) e também conferi o volume Cripta, que traz as cinco primeiras edições da revista Eerie. É curioso como histórias que nasceram com pretensão sombria podem se tornar goticamente exóticas, tempos depois. A estrutura de apresentação e as narrativas em si chegam a despertar risos, ao contrário de medo - mas isso não é culpa da qualidade dos textos ou das imagens (quase todas muito boas!). O que mudou foi o público. Hoje não estamos mais acostumados a esse terror estimulado por figuras cadavéricas ou demoníacas; a expectativa de um assalto a mão armada nos aciona bem mais adrenalina. É lamentável como a vida urbana roubou essa ingenuidade de acreditarmos em mundos sombrios e maldições. Houve uma época em que os assombros nasciam do imaginário, e não das agressões reais, pouquíssimo criativas, da vida moderna.
Quando leio essas HQs sinto justificada a necessidade que alguns turistas sentem de se hospedar em casarões mal-assombrados ou velhos castelos ingleses, por exemplo. É a nostalgia dos relatos de horror que os motiva. Talvez o friozinho na espinha, ao pressentimento de um fantasma que arrasta correntes, seja uma espécie de reencontro com uma mitologia já quase totalmente abandonada...

domingo, 8 de maio de 2011

MG em HQ

Neste fim-de-semana, estive com o forte traço do Colin, nas Estórias Gerais - uma preparação para julho, quando farei expedição por terras mineiras. Mas creio que o sabor de minha viagem será outro, com a tônica sobre o ciclo do ouro e os profetas, e menor presença do jagunço roseano... De toda maneira, a atmosfera rústica está por todo esse nosso país, e aqui no Nordeste sobretudo!
Sinto falta de viajar pelo sertão. Sinto falta dos cheiros, dos barulhos no mato e da fartura numa mesa de madeira-de-lei: doces, coalhada, cajus cheirosos, queijos, tapioca coberta com paninho bordado, café coado e fervente, um galo espiando no parapeito da janela e, ao longe, o gado passando com um badalo triste de sino sem igreja.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Mundografia Moderna


Na próxima terça-feira, dia 11, às 19h30, no Centro Cultural Oboé (rua Maria Tomásia, 531) será lançado Mundografia Moderna, com texto do Silvyo Amarante e arte visual do Glauco Sobreira. A apresentação será do Raymundo Netto.
Vale a pena demais!

domingo, 21 de novembro de 2010

Mister Punch


Sobre minhas leituras de ontem, anunciadas aqui, devo dizer que a HQ Elvis decepcionou: é tosca, superficial e mal traduzida em muitos momentos. Em compensação, Mr. Punch é uma obra primorosa: o maravilhoso roteiro de Neil Gaiman me fez mergulhar nessa tradição de marionetes que vem da época vitoriana (o tal Mr. Punch é inspirado na commedia dell'arte, no polichinelo - e isso me lembra que já, já tenho de estudar italiano, para a aula de amanhã...). As ilustrações de Dave McKeath são lindas e criativas; fazem do álbum uma verdadeira exposição de arte!

sábado, 20 de novembro de 2010

Bons motivos



Hoje eu tinha uma boa razão para sair à noite, mas em compensação tenho vários motivos para ficar em casa. Primeiro, aqui estão, ao meu lado, dois convites para uma leitura que farei em breve: as HQs Elvis e Mr. Punch - uma ótima pedida para selar um sábado que começou bem, com a aula na Oficina de Quadrinhos (e novamente, senti a experiência de molhar os dedos nesse território de pesquisa, onde um dia mergulharei com profundidade). Depois, tenho também à espera algumas atrações musicais. Ontem o amado me presenteou com o Clube da Esquina, pensando na trilha mais adequada para a preparação de uma viagem que em breve farei: pela primeira vez, BH! Creio que não conhecerei nem um grama da riqueza mineira - mas isso será um aquecimento para o ano que vem, quiçá (e eu também não podia deixar de receber o prêmio do Governo de Minas pessoalmente: os organizadores foram tão gentis e solícitos!)...
Além das melodias de Milton e Lô, tenho ainda duas novidades que recebi em correspondência do meu precioso amigo Moa: Roberta Sá e Mariana Aydar. Na mesma encomenda-surpresa, ganhei O livro das pequenas infidelidades, de Edgar Telles Ribeiro, e Hóspede secreto, de Miguel Sanches Neto: são contos que devem me acompanhar nos hiatos dessa viagem - sim, pois não viajo com notebook, mas sem livros não consigo jamais embarcar.
Agora, chega de planos: vou dar início à minha noite-aconchego. Preparo uma rede na varanda, convido os bichanos para perto e... voilà! Isso é felicidade.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Para sair da mesmice


Tenho feito poucas postagens neste blog, mas a realidade é que rareiam os assuntos interessantes. Os últimos dias têm sido de pura rotina, e não tenho visto nada em arte que de fato mexa comigo. Pode ser que neste fim de semana a coisa mude - afinal, estou planejando a ida a pelo menos duas exposições. Quanto a filmes, não vejo muita perspectiva de mudança: tudo o que encontrei foi obviedade e fórmula, recentemente (e o mais curioso é que as pessoas não se dão conta disso: continuam a ver os mesmos chavões e inverossimilhanças dizendo "Ai, que lindo" ou "Nossa, que impressionante!"). Esse tipo de coisa me cansa. Não pela inverossimilhança em si, claro, que a boa arte sabe trabalhá-la... O problema são os valores, frágeis e simplórios, por trás de todas essas imagens premeditadas!
Somente duas obras foram meu alento, por agora: o livro Aulas de literatura, do Nabokov (que mostra um leitor disciplinado, obcecado, cheio de prazer mas, também, de capacidade crítica), e a série Wachtman, de HQ, com argumento de Alan Moore. O volume 2, sobretudo, me extasiou pelo trabalho narrativo com o tempo. Claro que estou ressaltando mais a estrutura do enredo, mas o trabalho plástico também é incrível - e é ele o que permite "fatiar" a cronologia da história e revelar novas dimensões.

domingo, 23 de maio de 2010

A fase sensível


Depois de um mês entregue aos prazeres do corpo e assombros da alma, resolvo lembrar que existem as necessidades do intelecto. Este fim de semana, pois, foi dedicado a filmes e livros (com uma breve incursão pelo terreno das artes plásticas, em visita ao grande Weaver, para lhe comprar duas telas e conversar sobre quadrinhos e grafites). Encerrei a sexta-feira com O segundo rosto, de Johhn Frankenheimer, trazendo Rock Hudson no papel principal. Desde a abertura, este filme da década de 1960 impressiona pela estética, oscilante entre um expressionismo à la O Gabinete do Dr. Caligari e um surrealismo com trabalho de perspectiva que lembra algumas imagens do De Chirico. Mas o enredo, acima de qualquer coisa, é muito bom. Talvez alguns momentos de diálogo pudessem ser menos monótonos – e fiquei com a sensação de que a construção do protagonista, em suas dúvidas existenciais, poderia ser mais convincente. Apesar disso, o final não poderia ser outro, e o diálogo com o livro de Pirandello é inevitável. Já separei O falecido Mattia Pascal, para relê-lo (e como é bom fazer releituras!).

Como havia terminado A suíte elefanta, do Paul Theroux (dedicando vários minutos para saborear o assombro da última novela, e sobretudo para analisar o terrível sentimento de prazer e identificação que o desfecho me trouxe), resolvi migrar do tema da Índia para a literatura italiana... e o Pirandello em reserva deve continuar esta trilha. O Léxico familiar, da Natalia Ginzbourg, está fazendo com que eu mergulhe um pouco no universo biográfico alheio. Assim como nos quadrinhistas citados na conversa com o Weaver (Crumb, J. Carlos Fernandes, Dash Shaw, Chris Ware, David B.), percebo na Natalia esta tendência confessional-crítica, que é tão diferente da confessional-piegas ou da confessional-vítima. Talvez apenas a primeira modalidade – escorregadia, embora – possa atingir o nível de arte e, quando o faz, promove tanta identificação que parece absurdo que histórias tão pessoais ganhem aceitação tão grande.

Voltando aos filmes, no sábado vi Patch Adams, inspirada por uma entrevista que li na revista Planeta, com o médico que motivou o papel do Robin Williams. O verdadeiro Patch criticou, naturalmente, a distorção hollywoodiana que o cinema fez de sua vida, mudando papeis e fatos para agradar às massas. Concessões feitas à diferença que a realidade sempre trará, em relação à transfiguração estética, gostei do filme e recomendo, não só como boa história de vida (de novo a biografia alheia, que tanto nos atrai...), mas principalmente como diversão. Afinal, o humor é tão importante quanto o amor – já dizia o autêntico Patch.

Dr. Fantástico, do Kubrick, foi a terceira pedida da noite, e confesso que pensei que gostaria mais deste filme tão comentado. Talvez tenha ficado meio datado por algum motivo, não sei: não pela circunstância histórica essencialmente, pois se penso num livro como Armagedom em retrospecto, do Kurt Vonnegut, vejo que esta é também uma obra presa a circunstâncias de época – mas que consegue ser eterna.

O domingo me trouxe a história de O visitante, com Richard Jenkins: um filme com atmosfera despretensiosa, mas que comove e envolve. À semelhança do Patch Adams, traz aquele sentimento bom de ajudar, de estar perto das pessoas, arrancar um abraço ou sorriso. Sim, eu sei que isso pode parecer bobo – e normalmente não perdoo essas tendências melosas. Mas o que fazer, se estou numa fase à flor da pele? Isso ainda é conseqüência do Nunta muta, fantástico filme romeno que vi há alguns dias, numa encantada e praticamente vazia sala do cinema no Dragão...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Umbigo sem fundo + filmes


É claro que a crítica exagerou ao chamar esta obra de "épica" - ou então, o conceito já se desmantelou, como muita coisa nesta era pós-pós. Mas, sem grandes pretensões (ou talvez justamente por não tê-las), esta é uma boa leitura. O traço de Dash é grotesco, o que combina com o caráter de suas personagens. Muitas soluções de movimento são impressionantes, nestes quadrinhos: eles têm ritmo e sabem trabalhar o monocromático e os espaços vazios.
Foi bom relaxar de um político romance do Agualusa (A Conjura) com este Umbigo sem fundo.
Fora isso, os dias têm sido fílmicos: muuuuita coisa dispensável - mas dá pra destacar, da locadora, A onda (só pra não dizer que não falei do nazismo), que não me convenceu completamente porque essas ambientações de escola são sempre muito complicadas: para os não-professores, deve parecer bem verossímil, mas quem está no magistério sabe que a realidade é muito diferente, e não só no Brasil. Outro filme? Hum... Talvez A vida secreta das abelhas, que tem um título quase tão poético quanto A língua das mariposas, mas não chega a ser tão bom. Também, seria demais pedir um roteiro com a qualidade do Manuel Rivas sem ser produzido pelo Manuel Rivas... Apesar de tudo, A vida secreta vale pelo toque histórico e pela aparição de Dakota Fanning, que atuou tão bem - embora fosse então uma garotinha - no belo Sonhadora.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Sobre judeus e burocratas


De uns tempos para cá, seja por simples coincidência ou por conspiração divina, praticamente todo livro que leio aborda o tema do nazismo. Essa grande convergência começou forte com As Benevolentes, acho - e desde então foram diversos títulos, passando pela recente biografia da Clarice e, agora, pelos quadrinhos de Art Spiegelman. Provavelmente, o fenômeno de difusão desse tema é mundial (mas eu me pergunto porque justo neste momento, e não uma geração antes, por exemplo, o tapete foi levantado). Há de existir um motivo político ou histórico para isso, mas antes de tudo há essa curiosidade mórbida que nos caracteriza como humanos. Por que somos tão atraídos pelas desgraças alheias? Para, egoisticamente, tranquilizarmo-nos: isso já dizia Sontag, no seu Diante da dor dos outros.
Funciona. Ler os relatos dos campos de concentração - quadrinizados ou não - minimiza qualquer problema. Passamos a valorizar a comida, a cama e o banho, o simples ato de abrir uma janela ao sol. Esse é o ponto positivo de tais leituras, e agarro-me a ele - mas não posso ignorar o lado negativo, que sempre pulsa, e neste caso consiste na pergunta: O que leva alguém a se desumanizar? Não há resposta simples ou única para isso, mas se me questiono a respeito do que tornou possível a existência do nazismo, num século supostamente moderno ou livre da superstição de caça às bruxas, vejo dois pontos iniciais: a vaidade e a burocracia. Quando alguém se sente poderoso, põe-se a criar ritos, hierarquias ou papelada que tem de ser seguida insanamente. Os tais "exímios seguidores" vão se tornando mais e mais arrogantes por participarem de um sistema - e isso idiotiza, dessensibiliza e, por fim, justifica qualquer chacina.
Parece uma opinião exagerada? Juro que não é. Observe qualquer burocrata, e você verá que, para esconder seus atrofiados neurônios, o indivíduo adota uma postura de orgulho tedioso: anda e fala ao telefone com lentidão, julgando-se sábio e ponderado - mas a vagueza não chega nem a ser um esperto disfarce; é, antes, consequência de sua opacidade: nunca acelera porque não tem ideias que permitam a rotação adequada. Envaidece-se, então, da pilha de processos que ocupa sua mesa, como se um volume equivalente ocupasse o seu cérebro. E essa vaidade logo se transforma num poder perigoso, se o burocrata vê alguém escapando de seus artículos - alguém que é livre, louco ou artista, ou qualquer equivalente. A represália nasce, aqui, da incompreensão ou da inveja - não importa.
O que importa mesmo é que os burocratas nunca vencem. Os nazistas foram burocratas ao máximo, em seu perfil militar e em sua necessidade de seguir um líder. Não exterminaram os judeus, por mais que tenham se esforçado. E hoje, ainda há muito esforço de correntes ideológicas para engessar (burocratizar) a humanidade. Mesmo assim, há os que permanecem livres, ainda que num diminuto território. Esses são os que criam, inventam o que querem, e podem até recontar a História como ela seria, se em vez de burocratas houvesse mais rebeldes, mais anônimos corajosos.
Não é isso o que o Tarantino faz, no seu Bastardos inglórios? Outra obra sobre judeus, mas bem diferente da "papelada"...