LIVROS E BICHOS

Este é o blog da Tércia Montenegro, dedicado preferencialmente a livros e bichos - mas o internauta munido de paciência também encontrará outros assuntos.

sábado, 16 de abril de 2011


“(...) quando falo, é só de forma diferente que me embrulho no silêncio.”

Herta Müller



quinta-feira, 14 de abril de 2011

Para conhecer

Esta impressionante imagem é de uma escultura de Fritz Wotruba, artista vienense cuja história de vida marca as mais belas páginas d'O jogo dos olhos, último volume da trilogia memorialista do Elias Canetti.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Fora de si

Quando alguém comete um ato hediondo, algo que ultrapassa as fronteiras do suportável, é comum que as pessoas busquem desesperadamente uma razão ou dispositivo capaz de acionar aquela maldade. Precisamos ver o rosto do assassino, revisar sua trajetória em busca de pistas que nos esclareçam. Buscamos rótulos, escolhemos termos como “louco”, “anormal” ou “fanático” – e a mídia estimula essas atitudes, detalhando a biografia do criminoso, subitamente transformado em espetáculo.

Há uma necessidade essencialmente humana nesse esforço – embora também haja muita especulação sangrenta, ligada à simples curiosidade mórbida. Imaginemos, entretanto, que a maioria assiste ao noticiário com estupefação e horror, para depois procurar minúcias do crime na internet, e isso não por prazer, mas por ânsia de explicação. É urgente que o absurdo faça sentido, e para isso são convocados especialistas. Psicólogos, sociólogos, educadores opinam, abrem teorias – e pode ser que depois de um tempo alcancemos não o sossego (impossível diante do episódio), mas um relativo conformismo. As hipóteses – deterministas, patológicas ou espirituais – nos convenceram de certa perspectiva. Um dos rótulos se sobressaiu, apontando o assassino como um ser que esteve “fora de si”, por algum motivo.

Ora, é justamente esta expressão tão usada que me parece um equívoco. Ela indica a irracionalidade, associada à loucura ou a tudo que não pode ser abarcado pela mente normal. Mas, por outro lado, é viável pensar que um matador de crianças que planeja o crime e deixa instruções póstumas estava, ao contrário, bem concentrado em seus objetivos – sejam eles resultado de delírio ou não. Ele estava tão dentro de si, tão voltado para seu ego inflado com visões de grandeza, que não se importou em destruir os outros. Aliás, essa destruição era a forma de exercer seu poder assassino – um ímpeto baseado em covardia óbvia.

No fundo, todo assassino é um vaidoso fatal, alguém que precisa se afirmar através da aniquilação alheia. Não importa que ele aja isolado, movido por “vozes” dentro da própria cabeça, ou integre um grupo doutrinário. Sua impressão de si mesmo o exclui dos demais e o faz pensar que é especial perante a sociedade, um tipo de eleito divino, vítima específica ou vingador imbatível.

Mas o fato é que poucas pessoas, dentro da história do mundo, são relevantes e inesquecíveis. Algumas alcançaram fama por motivos torpes: certos líderes cruéis, por exemplo, jamais serão perdoados. Mas muitos – santos, cientistas ou mestres – foram especiais porque saíram de si em direção à humanidade. São esses os verdadeiros poderosos, os que celebram a vida e a melhoram. Para eles, não é preciso buscar explicação ou significado: sua verdade sempre foi real, não imaginária.


Tércia Montenegro

(crônica publicada hoje na coluna Opinião, do jornal O Povo. Disponível também no portal http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2011/04/13/noticiaopiniaojornal,2125107/fora-de-si.shtml)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Brueghel



Estas duas imagens do Brueghel, O triunfo da morte e A parábola dos cegos, são comentadas nas páginas que ontem li, do Canetti. A descrição é poderosa, leva ao desejo imediato de conhecer as obras com detalhes. Infelizmente, o que se encontra na internet é coisa desse tipo: imagens em baixa resolução, reduzidas, com os personagens quase invisíveis, mutilados em suas expressões. Será que diante de exemplos como esse ainda se pode dizer que as informações virtuais são suficientes, substituem a experiência ao vivo? Brueghel é o tipo de artista que não se captura fora de uma apreensão real - e para isso, é preciso viajar, encontrá-lo em presença viva. Digo mais: uma viagem se justifica não somente por paisagens e surpresas culturais, mas pelo encontro com peças artísticas. Vou me lembrar para sempre do pequeno Monet que me arrebatou em Lisboa, oito anos atrás, assim como não esquecerei os Van Gogh que vi no MASP, os quadros de Dalí e Magritte e a linda escultura do Boccioni, no museu Peggy Guggenheim, em Veneza... É como se tudo saísse da ficção, das páginas dos livros, e virasse mundo - ou melhor, é como se eu mesma entrasse na ficção por um instante e tivesse um olhar nítido como nunca antes!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Felicidade demais




Leio estes contos da Alice Munro: é aquela escrita objetiva, no estilo de grande parte da literatura em língua inglesa - mas as situações sofrem reviravoltas boas, que só um escritor maduro arriscaria. Está valendo a pena.
Em outros momentos continuo com o Canetti, agora no segundo volume da trilogia, Uma luz em meu ouvido. Fora essas atrações, estou sem muita novidade. Tenho revisto filmes antigos (neste fim-de-semana, foram os Sonhos do Kurosawa) e fui a duas exposições de arte, no CCBNB e no Sobrado José Lourenço. Gostei muitíssimo d'O Pianista, do Campelo Costa, mas no geral estou funcionando em frequência média, sem grandes arrebatamentos...

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A língua absolvida



Estou lendo agora A língua absolvida, primeiro volume da trilogia autobiográfica de Elias Canetti. É meu primeiro contato com a obra deste autor, de quem antes apenas tinha ouvido falar. Sua narrativa é fluida, sem malabarismos verbais, com ótimas histórias. Também... pode-se dizer que ele foi um privilegiado, pois desde cedo seu aprendizado não encontrou limites. Aos dez anos de idade, já falava com fluência quatro línguas e tinha morado em três países. E isso não era uma exceção para o espírito da época! Creio que no começo do século XX, quando a bestialidade midiática ainda não tinha invadido as mentes, a inteligência era um algo incentivado na maioria dos ambientes. Hoje, ao contrário, parece que as pessoas só admitem ouvir chavões e obviedades. No próprio espaço escolar, é inimaginável que os alunos disputem conhecimentos, nos dias atuais. Querem, ao contrário, nivelar-se em modismos fúteis, e aqueles que demonstram maior sensibilidade ou raciocínio são logo excluídos como "CDFs" - um rótulo de carga pejorativa, quando na verdade a inteligência deveria ser louvada! Sinal dos tempos, talvez... Na época da infância de Canetti, ainda podemos ver uma sociedade que compete por enriquecimento cultural, e as crianças brincam com citações literárias, aprendem latim e hebraico, conhecem canções folclóricas e passeiam por cidades milenares, com consciência do território em que pisam.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Ainda sobre sapatos

A crônica que publiquei há quinze dias, neste jornal, foi tema de conversa em certo ambiente da boemia cearense. Certamente o assunto não teria vindo à baila se eu não estivesse presente, pois dissertar sobre sapatos não parece ser coisa comum ao repertório masculino. Entretanto, como eu tinha feito uma aparição surpresa no tal barzinho, os amigos fizeram essa homenagem, de comentar a crônica e até desenvolvê-la.

“É possível identificar a personalidade de alguém pelo calçado”: era o que me dizia um colega, na hora em que todos atingiam a terceira etapa etílica e se tornavam súbitos sábios. “Sapatilhas românticas não costumam ser usadas por mulheres de estilo vampiresco” – revelou outro – “Essas jamais abandonam o salto-agulha, arma de mil utilidades, que usam, por exemplo, para palitar os dentes no escuro de um toillete, ou para semelhante uso por baixo das longas unhas esmaltadas. Ocasionalmente, os saltos podem transformar-se em punhais, principalmente dentro de uma alcova em que reine o ciúme. Então, dificilmente alguém desconfia do rastro de gotículas... Talvez apenas um velho sapateiro suspire, acostumado a encontrar nas virolas um vestígio de sangue.”

“Mas sandálias havaianas costumam passear por todos os pés em veraneio, sem discriminação”, disse eu. “Porém” – interrompeu um amigo – “apenas os dotados de um perfil malandro ou, para sermos mais sutis, um jeito relaxado, gostam de usá-las todos os dias, a qualquer hora. Nada contra tais usuários! Ao contrário, estes são os da minha simpatia” – continuou ele – “pois demonstram o amor à liberdade e ao conforto.”

“Tênis também passam sensação equivalente” – interferiu alguém. A resposta: “Depende. Conforme o modelo ou o estilo, podem ter a suavidade de um chinelo ou pesar como cimento sobre esquis...” Naquela altura, aproveitei para comentar que sapatos de escritório me parecem sempre antipáticos, com suas pontas agudas, um jeito de jacaré. Ficam ali, em cores neutras e sóbrias, incapazes de tamborilar distraídos: é que, por dentro, trazem dedos tensos, esmagados entre a palmilha e o cadarço.

Ninguém escutou aquelas considerações finais. Estavam todos em novo assunto, que (admiti) era mais apropriado ao ambiente. Eu tivera cinco minutos de prestígio, lançando o mote de um debate; agora, era a vez dos velhos e queridos temas: literatura, fofoca, piadas.

Só por curiosidade, lancei um olhar para debaixo das mesinhas de plástico. Ali, por entre garrafas vazias, unidas no feitio de buquês de vidro, estavam os pés de todos: pares em diversas posições e tamanhos – mas unânimes, àquela hora, em se despir dos calçados que traziam. Inclusive eu tinha me libertado das sandálias e pisava com displicência sobre elas.


Tércia Montenegro (crônica publicada hoje na coluna Opinião do jornal O Povo. Disponível também em http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2011/03/30/noticiaopiniaojornal,2119395/ainda-sobre-sapatos.shtml)

terça-feira, 29 de março de 2011

Sofia blasée


Decididamente, Maria Antonieta deve ter sido uma exceção na filmografia da Sofia Coppola. Quando não é salva por um argumento histórico (que consegue, de modo interessante, trabalhar num feitio pop), ela derrapa na monotonia - por que será? A contemporaneidade é tão inútil assim, que os protagonistas de suas histórias sempre se mostram perdidos em dramas-clichês? Neste último domingo, fui ver Em algum lugar, apenas para dividir suspiros de tédio com uma plateia no dilema fico-ou-levanto. O enredo dá agonia de tão desgastado: o velho tema do sujeito podre de rico que esquece as coisas mais essenciais, como família, amor verdadeiro etc. A abordagem é igualmente óbvia, com intermináveis câmeras paradas, contando os minutos de vida que o personagem joga fora - e os espectadores também!
Apenas uma cena vale em todo esse lugar-comum: a bela dança no gelo que a atriz-mirim, filha do protagonista, faz no início do filme. O resto é tristemente desnecessário.

sábado, 26 de março de 2011

O canto das horas na Folha do Meio


Amigos,

Minha crônica "O canto das horas" foi publicada no jornal Folha do Meio Ambiente. O belo trabalho do Silvestre Gorgulho revela o idealizador do relógio que motivou esse meu texto. Para saber detalhes, veja o link http://www.folhadomeio.com.br/publix/fma/folha/2011/03/ponto217.html

quinta-feira, 24 de março de 2011

Revista Kalinka

Uma ótima dica aos que amam a arte e a cultura eslava: a revista Kalinka (http://www.kalinka.com.br/index.php) traz entrevistas sobre a literatura russa contemporânea e traduções confiáveis, além de indicar outros lugares virtuais de grande interesse.

terça-feira, 22 de março de 2011

Day-off



Não, não me venham com obrigações no dia de hoje... Às terças e quintas, eu funciono no modo lento.

domingo, 20 de março de 2011

Cópia fiel, Brassaï & Brasiliana














Neste fim-de-semana, pude me deliciar com algumas amostras de ótima arte. Entrei por acaso no cinema do Dragão do Mar para ver Cópia fiel. Estava sem nenhuma recomendação, sem resenha lida, nada. Pois esse filme de Abbas Kiarostami me encantou por muitos motivos: a linda paisagem toscana, o plurilinguismo perpassado de ironias e o jogo de duplicidades que se percebe não apenas no argumento em torno de arte autêntica ou da sua reprodução - a esperteza ambígua da câmera faz com que o espectador se extasie com alguns "achados" de perspectiva.
E como é bom assistir a uma história inteligente de vez em quando, algo que lide com diálogos sobre a estética, mas sem nenhum pedantismo! Ao contrário, o filme é leve e engraçado.
Antes da sessão, porém, eu já me encontrava embevecida. No espaço cultural da Unifor, meu primeiro objetivo eram as fotografias do Brassaï, dessa Paris dos anos 30: um retrato dos pavimentos noturnos, das construções desertas, dos solitários que se confundem com os postes ou se infiltram nos "inferninhos" (e quase se pode sentir o bafo adocicado das matronas, com um erotismo mumificado nas feições, com um olhar sempre severo diante de suas discípulas, cocottes de aspecto ingênuo, apesar da nudez). Depois dessa exposição, conferi também as peças da mostra Brasiliana - e estava achando tudo muito bom, pelo valor histórico e artístico (sobretudo do Rugendas, que nunca tinha antes visto ao vivo), mas fiquei realmente em êxtase quando entrei na sala2. Ali estavam primeiras edições de muitos livros, autógrafos, páginas com erros célebres de impressão (se serve de consolo saber que desde sempre as gráficas brasileiras eram descuidadas...), obras de parceria incrível entre autor e ilustrador... Foi a melhor parte, ao meu ver.

quinta-feira, 17 de março de 2011

quarta-feira, 16 de março de 2011

Sobre reinos e sapatos

Antigamente, as princesas perdiam o sapatinho de cristal numa apressada fuga à meia-noite – e apressados eram nossos olhos sobre as páginas. A leitura fazia esquecer que, ao contrário da personagem, tínhamos de calçar as famigeradas botas ortopédicas. Quem viveu a infância nos anos 80 sabe do que falo: a obsessão por eliminar joanetes e construir arcos nos pés fazia com que as meninas desde cedo fossem ao balé para fins anatômicos. Andar nas pontas era exercício obrigatório e – como se não bastassem as unhas encravadas que iriam nos perseguir vida afora, junto com palmilhas e demais apetrechos – havia as botas. Numa era que conhecia o “show”da Xuxa, nem mesmo os coloridos coturnos das paquitas disfarçavam o padrão opressor daquela moda.

Muitos anos depois, posso dizer que nunca aderi ao estilo country por motivos traumáticos, mas atravessei a adolescência sonhando com um baile de vestidos esvoaçantes e calçados delicados, da textura de uma nuvem. Bem no princípio da fase em que os hormônios começam a pipocar, soube que minha família executava uma espécie de introdução da mulher na vida adulta. O ritual consistia em ensinar à jovem – às vésperas de seu décimo quarto aniversário – como andar de salto alto. Vi minha irmã equilibrar-se com dois livros em cima da cabeça, usando o modelo-agulha de minha mãe. Depois, acompanhei duas primas cumprirem o mesmo ritual. Havia tropeços, pés virados, mas com algumas tentativas a garota conseguia andar de um jeito espontâneo, sem deixar os livros caírem.

Para a minha data, foram convidados vários familiares. Depois do trajeto no corredor de casa, haveria um bolo e a entrega do presente – os sapatos brancos e delicados com os quais eu tanto sonhara. Mas as fatalidades sempre ameaçam ocasiões desse tipo, e poucas semanas antes do dia eu levei uma de minhas incontáveis quedas, rompendo um ligamento no tornozelo. O desfile foi cancelado, e quando a fisioterapia me deu alta havia passado tanto tempo que todo mundo perdeu o gosto.

Nunca consegui me equilibrar direito com salto alto. Quando me queixo, invejando amigas que atravessam calçadas de pedras pontudas, recebo um displicente: “Ah, mas você é alta!” O conto não diz se Cinderela usava saltos, nem se precisava disso pela pouca estatura. De qualquer modo, os príncipes encantados já não perseguem a princesa que calça um número mínimo, em modelo de cristal. Aliás, príncipes hoje são os homens que nos descalçam e sabem que o amor começa pelos pés, com uma relaxante massagem...


Tércia Montenegro (crônica publicada hoje na coluna Opinião, do jornal O Povo. Disponível também em http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2011/03/16/noticiaopiniaojornal,2113758/sobre-reinos-e-sapatos.shtml)

terça-feira, 15 de março de 2011

Adélio Sarro

Acabo de voltar do Centro Cultural Dragão do Mar: o jornal anunciava espetáculo do grupo Clowns de Shakespeare no Sesc Iracema, numa sessão às 15h30. Infelizmente, eu ainda não me acostumei com esse "jeitinho" brasileiro de anunciar horários errados ou desmarcar sessões na última hora - quase nunca telefono para confirmar, antes de sair de casa. O resultado foi uma viagem perdida, mas nem tanto, porque ao menos tive a chance de ver por lá uma exposição da qual não tinha ouvido falar, mas que me encantou muitíssimo. Os quadros de Adélio Sarro estão numa mostra até o dia 3 de abril, dentro de um projeto de acessibilidade para deficientes visuais. Todas as pinturas favorecem o tato, porque ressaltam diversas texturas e contornos, e ainda há a tradução em braile (bem eficaz, sem aquela pose hermética de algumas pseudocuradorias). É não apenas uma iniciativa interessante, mas ultrapassa uma preocupação integrativa, porque os quadros são mesmo muito belos, e vale a pena tocá-los - algo que até então, para mim, foi um gesto proibido nas artes visuais.