
“(...) quando falo, é só de forma diferente que me embrulho no silêncio.”
Herta Müller
Quando alguém comete um ato hediondo, algo que ultrapassa as fronteiras do suportável, é comum que as pessoas busquem desesperadamente uma razão ou dispositivo capaz de acionar aquela maldade. Precisamos ver o rosto do assassino, revisar sua trajetória em busca de pistas que nos esclareçam. Buscamos rótulos, escolhemos termos como “louco”, “anormal” ou “fanático” – e a mídia estimula essas atitudes, detalhando a biografia do criminoso, subitamente transformado em espetáculo.
Há uma necessidade essencialmente humana nesse esforço – embora também haja muita especulação sangrenta, ligada à simples curiosidade mórbida. Imaginemos, entretanto, que a maioria assiste ao noticiário com estupefação e horror, para depois procurar minúcias do crime na internet, e isso não por prazer, mas por ânsia de explicação. É urgente que o absurdo faça sentido, e para isso são convocados especialistas. Psicólogos, sociólogos, educadores opinam, abrem teorias – e pode ser que depois de um tempo alcancemos não o sossego (impossível diante do episódio), mas um relativo conformismo. As hipóteses – deterministas, patológicas ou espirituais – nos convenceram de certa perspectiva. Um dos rótulos se sobressaiu, apontando o assassino como um ser que esteve “fora de si”, por algum motivo.
Ora, é justamente esta expressão tão usada que me parece um equívoco. Ela indica a irracionalidade, associada à loucura ou a tudo que não pode ser abarcado pela mente normal. Mas, por outro lado, é viável pensar que um matador de crianças que planeja o crime e deixa instruções póstumas estava, ao contrário, bem concentrado em seus objetivos – sejam eles resultado de delírio ou não. Ele estava tão dentro de si, tão voltado para seu ego inflado com visões de grandeza, que não se importou em destruir os outros. Aliás, essa destruição era a forma de exercer seu poder assassino – um ímpeto baseado em covardia óbvia.
No fundo, todo assassino é um vaidoso fatal, alguém que precisa se afirmar através da aniquilação alheia. Não importa que ele aja isolado, movido por “vozes” dentro da própria cabeça, ou integre um grupo doutrinário. Sua impressão de si mesmo o exclui dos demais e o faz pensar que é especial perante a sociedade, um tipo de eleito divino, vítima específica ou vingador imbatível.
Mas o fato é que poucas pessoas, dentro da história do mundo, são relevantes e inesquecíveis. Algumas alcançaram fama por motivos torpes: certos líderes cruéis, por exemplo, jamais serão perdoados. Mas muitos – santos, cientistas ou mestres – foram especiais porque saíram de si em direção à humanidade. São esses os verdadeiros poderosos, os que celebram a vida e a melhoram. Para eles, não é preciso buscar explicação ou significado: sua verdade sempre foi real, não imaginária.
Tércia Montenegro
(crônica publicada hoje na coluna Opinião, do jornal O Povo. Disponível também no portal http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2011/04/13/noticiaopiniaojornal,2125107/fora-de-si.shtml)



A crônica que publiquei há quinze dias, neste jornal, foi tema de conversa em certo ambiente da boemia cearense. Certamente o assunto não teria vindo à baila se eu não estivesse presente, pois dissertar sobre sapatos não parece ser coisa comum ao repertório masculino. Entretanto, como eu tinha feito uma aparição surpresa no tal barzinho, os amigos fizeram essa homenagem, de comentar a crônica e até desenvolvê-la.
“É possível identificar a personalidade de alguém pelo calçado”: era o que me dizia um colega, na hora em que todos atingiam a terceira etapa etílica e se tornavam súbitos sábios. “Sapatilhas românticas não costumam ser usadas por mulheres de estilo vampiresco” – revelou outro – “Essas jamais abandonam o salto-agulha, arma de mil utilidades, que usam, por exemplo, para palitar os dentes no escuro de um toillete, ou para semelhante uso por baixo das longas unhas esmaltadas. Ocasionalmente, os saltos podem transformar-se em punhais, principalmente dentro de uma alcova em que reine o ciúme. Então, dificilmente alguém desconfia do rastro de gotículas... Talvez apenas um velho sapateiro suspire, acostumado a encontrar nas virolas um vestígio de sangue.”
“Mas sandálias havaianas costumam passear por todos os pés em veraneio, sem discriminação”, disse eu. “Porém” – interrompeu um amigo – “apenas os dotados de um perfil malandro ou, para sermos mais sutis, um jeito relaxado, gostam de usá-las todos os dias, a qualquer hora. Nada contra tais usuários! Ao contrário, estes são os da minha simpatia” – continuou ele – “pois demonstram o amor à liberdade e ao conforto.”
“Tênis também passam sensação equivalente” – interferiu alguém. A resposta: “Depende. Conforme o modelo ou o estilo, podem ter a suavidade de um chinelo ou pesar como cimento sobre esquis...” Naquela altura, aproveitei para comentar que sapatos de escritório me parecem sempre antipáticos, com suas pontas agudas, um jeito de jacaré. Ficam ali, em cores neutras e sóbrias, incapazes de tamborilar distraídos: é que, por dentro, trazem dedos tensos, esmagados entre a palmilha e o cadarço.
Ninguém escutou aquelas considerações finais. Estavam todos em novo assunto, que (admiti) era mais apropriado ao ambiente. Eu tivera cinco minutos de prestígio, lançando o mote de um debate; agora, era a vez dos velhos e queridos temas: literatura, fofoca, piadas.
Só por curiosidade, lancei um olhar para debaixo das mesinhas de plástico. Ali, por entre garrafas vazias, unidas no feitio de buquês de vidro, estavam os pés de todos: pares em diversas posições e tamanhos – mas unânimes, àquela hora, em se despir dos calçados que traziam. Inclusive eu tinha me libertado das sandálias e pisava com displicência sobre elas.
Tércia Montenegro (crônica publicada hoje na coluna Opinião do jornal O Povo. Disponível também em http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2011/03/30/noticiaopiniaojornal,2119395/ainda-sobre-sapatos.shtml)



Antigamente, as princesas perdiam o sapatinho de cristal numa apressada fuga à meia-noite – e apressados eram nossos olhos sobre as páginas. A leitura fazia esquecer que, ao contrário da personagem, tínhamos de calçar as famigeradas botas ortopédicas. Quem viveu a infância nos anos 80 sabe do que falo: a obsessão por eliminar joanetes e construir arcos nos pés fazia com que as meninas desde cedo fossem ao balé para fins anatômicos. Andar nas pontas era exercício obrigatório e – como se não bastassem as unhas encravadas que iriam nos perseguir vida afora, junto com palmilhas e demais apetrechos – havia as botas. Numa era que conhecia o “show”da Xuxa, nem mesmo os coloridos coturnos das paquitas disfarçavam o padrão opressor daquela moda.
Muitos anos depois, posso dizer que nunca aderi ao estilo country por motivos traumáticos, mas atravessei a adolescência sonhando com um baile de vestidos esvoaçantes e calçados delicados, da textura de uma nuvem. Bem no princípio da fase em que os hormônios começam a pipocar, soube que minha família executava uma espécie de introdução da mulher na vida adulta. O ritual consistia em ensinar à jovem – às vésperas de seu décimo quarto aniversário – como andar de salto alto. Vi minha irmã equilibrar-se com dois livros em cima da cabeça, usando o modelo-agulha de minha mãe. Depois, acompanhei duas primas cumprirem o mesmo ritual. Havia tropeços, pés virados, mas com algumas tentativas a garota conseguia andar de um jeito espontâneo, sem deixar os livros caírem.
Para a minha data, foram convidados vários familiares. Depois do trajeto no corredor de casa, haveria um bolo e a entrega do presente – os sapatos brancos e delicados com os quais eu tanto sonhara. Mas as fatalidades sempre ameaçam ocasiões desse tipo, e poucas semanas antes do dia eu levei uma de minhas incontáveis quedas, rompendo um ligamento no tornozelo. O desfile foi cancelado, e quando a fisioterapia me deu alta havia passado tanto tempo que todo mundo perdeu o gosto.
Nunca consegui me equilibrar direito com salto alto. Quando me queixo, invejando amigas que atravessam calçadas de pedras pontudas, recebo um displicente: “Ah, mas você é alta!” O conto não diz se Cinderela usava saltos, nem se precisava disso pela pouca estatura. De qualquer modo, os príncipes encantados já não perseguem a princesa que calça um número mínimo, em modelo de cristal. Aliás, príncipes hoje são os homens que nos descalçam e sabem que o amor começa pelos pés, com uma relaxante massagem...
Tércia Montenegro (crônica publicada hoje na coluna Opinião, do jornal O Povo. Disponível também em http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2011/03/16/noticiaopiniaojornal,2113758/sobre-reinos-e-sapatos.shtml)
Acabo de voltar do Centro Cultural Dragão do Mar: o jornal anunciava espetáculo do grupo Clowns de Shakespeare no Sesc Iracema, numa sessão às 15h30. Infelizmente, eu ainda não me acostumei com esse "jeitinho" brasileiro de anunciar horários errados ou desmarcar sessões na última hora - quase nunca telefono para confirmar, antes de sair de casa. O resultado foi uma viagem perdida, mas nem tanto, porque ao menos tive a chance de ver por lá uma exposição da qual não tinha ouvido falar, mas que me encantou muitíssimo. Os quadros de Adélio Sarro estão numa mostra até o dia 3 de abril, dentro de um projeto de acessibilidade para deficientes visuais. Todas as pinturas favorecem o tato, porque ressaltam diversas texturas e contornos, e ainda há a tradução em braile (bem eficaz, sem aquela pose hermética de algumas pseudocuradorias). É não apenas uma iniciativa interessante, mas ultrapassa uma preocupação integrativa, porque os quadros são mesmo muito belos, e vale a pena tocá-los - algo que até então, para mim, foi um gesto proibido nas artes visuais.