LIVROS E BICHOS

Este é o blog da Tércia Montenegro, dedicado preferencialmente a livros e bichos - mas o internauta munido de paciência também encontrará outros assuntos.
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quarta-feira, 27 de março de 2013

Álvares ou Fagundes?

Conforme comentei na crônica abaixo, diante da San Fran fica esta misteriosa imagem, do busto de Fagundes Varela com o nome e os dados de Álvares de Azevedo. Quem errou, afinal, na hora de homenagear um poeta romântico? Ou será que a intenção foi essa mesma, de fazer um dois em um e aproveitar o que ambos tinham de melhor - os versos e a aparência? Pensando bem, ficaria meio estranho ver um busto com a cabecinha tristonha do Álvares... O Fagundes é muito mais triunfante! Se bem que os seus poemas também valiam uma inscrição.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Rubem Grilo

Ganhando autógrafo no catálogo! Obrigada à Fádina, que clicou esta imagem e a enviou para mim.


Especialíssima a surpresa ontem, de encontrar no local da exposição (na Caixa Cutural) o próprio artista, Rubem Grilo, simpaticíssimo e - claro - por demais talentoso. Fiquei encantada com a sequência dos trabalhos, que já havia começado a ver na outra exposição, da Multiarte. Mas agora, com o acesso a algumas matrizes e um passeio pelas novas incursões, com colagens e desenhos, sinto que a arte do Grilo tornou-se ainda mais admirável! É, sem dúvida, um trabalho que não se pode deixar de conhecer - e, para quem está em Fortaleza, ficam as dicas:

Galeria Multiarte - exposição Rubem Grilo em duas dimensões (até 8 de fevereiro)
Caixa Cultural - exposição Rubem Grilo xilográfico (até 17 de fevereiro)

Alguns trabalhos dele também podem ser conferidos pelo site http://www.artepadilla.com.br/rubemgrilo/


Auscultador de pensamentos, 1999

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Portinari e Rivera

Há alguns dias fui ver, na Unifor, a exposição dos estudos para Guerra e Paz, do Portinari. Imediatamente, é claro, lembrei-me dos murais de Rivera (talvez, se me fosse possível escolher uma única imagem do mundo para eu levar para o além, eu escolhesse uma das pinturas que vi no México...). Mas a associação não foi feita apenas pela grandeza da proposta, que poderia me levar a pensar em qualquer outro muralista. Há algo mais íntimo, que liga estes dois artistas na pulsão incansável de sua obra: uma espécie de persistência ou mesmo fé na arte, como a única alternativa de ofício para a vida. No caso de Portinari, a escolha alcança laivos fatalistas, devido a sua morte causada pela intoxicação com as tintas. Mas não é preciso que se sacrifique a permanência nesta terra, em termos cronológicos, para se notar a verdadeira entrega do artista - ela está presente o tempo inteiro, e não com ares de sacrifício, como pode parecer a quem vê de fora. A entrega artística não é um esforço, uma obrigação; na verdade, talvez não seja sequer uma escolha, porque não existem opções concorrentes. A arte absorve com tamanha exclusividade, que a muito custo lembramos que estes homens foram também isso: homens, com seu universo doméstico, suas relações familiares, profissionais etc. Imagino os dois, Portinari e Rivera, impacientes com essa condição mesquinha de viver humanamente, enquanto, num mundo perfeito, poderiam ser unicamente criadores, o tempo inteiro.


sábado, 20 de outubro de 2012

Bertazzon & Bernardelli

Para se embevecer: duas esculturas do Museu de Belas Artes do RJ. Esta é um Angelus, de 1933, criação de Hugo Bertazzon (vale a pena também muitíssimo ver sua Pietà, na Pinacoteca de SP):

A obra de baixo é uma Moema, de Rodolfo Bernardelli. A história desses três irmãos artistas, Félix, Rodolfo e Henrique, é fascinante, e vale a pena pesquisá-la. Por enquanto, fiquemos com essa escultura, que mostra uma índia submersa e, ao mesmo tempo, mostra a arte nascendo de sua matéria - algo parecido com aquelas esculturas inacabadas de Michelangelo...



quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A musa dos olhos impossíveis

Quando estive na galeria dos pintores brasileiros, no Museu de Belas Artes do Rio, fiquei absolutamente impressionada com a série de quadros do Pedro Américo em que aparece uma mesma figura feminina, de olhos impossíveis. No detalhe da tela acima, ela aparece no papel de Joana D'Arc, e em vários outros quadros assume personagens as mais diversas. Quem teria sido essa modelo que posou para o artista? Será que ela realmente possuía esses olhos anatomicamente absurdos (apesar de belos, ou exóticos)? Como Pedro Américo era muito talentoso, não posso crer que ele tenha "exagerado" ou "errado" a fisionomia dessa mulher, ainda mais quando vemos o seu rosto, idêntico (e até mesmo envelhecendo, conforme a cronologia das pinturas), na série dos quadros ali expostos.
Estou remoendo o mistério dessa identidade... Se alguém tiver qualquer pista, por favor, me ajude!

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A casa de Kahlo




A CASA DE KAHLO*

Já comentei na crônica anterior, quinze dias atrás, que a Cidade do México é um esplendor em museus – mas, em meio a tantas opções, a Casa Azul (que era residência da pintora Frida Kahlo) ainda se destaca. Faz toda a diferença andar por um ambiente que foi habitado pelo próprio artista, mesmo que na maior parte dos espaços hoje se perceba um “arranjo” artificial, criado para expor os objetos, e não mais para desfrutar deles. Na verdade, o único aposento que parece ter sido realmente mantido, em composição e atmosfera, é o estúdio onde Frida pintava. Uma placa na parede confirma o pressentimento: todos os móveis, com estantes de livros, cavalete, espelho, estão ali exatamente como no passado. Vemos os pincéis e as tintas (guardadas em frascos de perfume), tudo paralisado numa expectativa inútil – e a cadeira de rodas, um corpete que Frida usou, depois de várias cirurgias... O ateliê vibra de luz e dor, com janelas abertas para o jardim.
A essa altura do percurso, passamos pelos quadros e desenhos famosos, vimos a lareira que Diego Rivera mandou construir para a sala principal e descobrimos um acervo de ex-votos pintados em chapas de alumínio, que se mandava fazer pelo alcance de uma graça. Frida colecionava essas relíquias de arte popular, assim como também guardava inúmeras bonecas numa escrivaninha. Cada quarto estava repleto de gente, turistas lentos e silenciosos, provavelmente tão impressionados quanto eu. Porque é quase um ato profano, ingressar na intimidade doméstica de quem se admira e não se conhece – ainda mais em outra época, póstuma. Frida não tem como fechar as portas, defender-se do olhar invasivo de estranhos que sondam sua existência talentosa e trágica. Sua presença ronda os objetos que lhe sobreviveram, está fragmentada na memória de todas estas peças – mas ao mesmo tempo se distorce, com a lojinha de souvenirs e a escultura dela e Diego como esqueletos, num senso de humor bizarro. São as exigências do turismo, dirão alguns, e eu não posso negar. Estes elementos lembram que a Casa Azul, afinal, não é mais uma casa...
Talvez o verdadeiro refúgio de Frida, o núcleo onde ela ainda se mantém discreta e preservada, esteja no último quarto. Em meio à mobília e tantos acessórios de decoração, sobre uma mesa está sua urna funerária, em formato de sapo. Os antigos mexicas acreditavam que este animal tinha comunicação direta com o inframundo, por sua capacidade anfíbia – mas há outra explicação válida. Diego Rivera, marido de Frida, também era conhecido pelo apelido de sapo, por sua aparência gorda, de olhos saltados. Para as cinzas de uma mulher que viveu sempre desconfortável no próprio corpo, não pode haver descanso melhor que uma urna no formato do homem que ela amava.

Tércia Montenegro (escritora, fotógrafa e professora da UFC)
* Crônica  publicada hoje no jornal O Povo. Disponível também no site respectivo.

domingo, 15 de julho de 2012

Mais um motivo para o México

Nahui Olin, la dama de los gatos... Tenho de encontrar alguma obra dela!


quinta-feira, 12 de julho de 2012

A caminho do México

Amigos, este blog anda meio lento por várias razões: problemetos que sempre assombram as férias, computador enguiçado, falta de tempo e uma viagem à vista. Este último ponto é o único positivo e capaz de me fazer esquecer os demais. México será o meu destino, a partir da semana que vem. Acima, vocês têm a principal razão para eu ter escolhido este destino: Frida Kahlo, artista que me encantou desde que eu tinha uns 13 anos de idade. Ela me ensinou que não se pode fazer arte abdicando das próprias experiências, e o que parece personalíssimo tem o dom de virar universal, com o talento! Finalmente visitarei a famosa Casa Azul, onde a Frida morou - e, como o México tem muuuito mais, também serei vista em museus, igrejas, sítios arqueológicos e mercados de artesanato! Espero trazer ótimas impressões, na volta - mas, antes que eu parta, ainda deixarei para vocês mais uma crônica, na quarta-feira que vem.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Miranda July

Por indicação da amiga Fernanda Meireles, no último final de semana conheci a multiartista Miranda July, através do filme "Eu, você e todos nós", em que ela atua e dirige. A história é divertida e interessante, com muitas situações em clima de absurdité artística: é parecido com aquilo que eu disse antes sobre o livro da Viola di Grado (embora ela e Miranda sejam autoras em atmosferas distintas): existe coragem de arriscar, de insistir numa tendência que talvez não seja aceita ou compreendida por todos - mas será que isso existe? e se existe, será que importa? A experiência com o filme de Miranda July (e também uma visita virtual pelos seus outros projetos) me fez perceber - ou lembrar - o fato de que os artistas, querendo ou não, são sempre isolados, são minoria em assumir uma sensibilidade que talvez as outras pessoas até tenham, mas passam a vida dedicando-se a esconder. E essa sensibilidade não precisa ser explicada, justificada de modo algum: pode circular numa esfera de surrealidade, desde que haja um propósito estético. E com Miranda July, há. Suas performances ou criações na área da arte visual são delicadas e divertidas, questionadoras ou irônicas. Sobretudo, fogem da mesmice, que é o que um artista sempre deve fazer. Em literatura, ainda não a conheço; descobri que ela tem um livro de contos, mas ainda vou encomendar. Suspeito que a sua inquietação criativa deva invadir essa área também, com cenas marcantes - incômodas, para alguns -, mas por enquanto não posso opinar. De qualquer modo, fico com a ideia de que sua incursão literária é parte de um projeto muito maior, de extravasamento artístico em várias linguagens. Cada vez mais acho isso legítimo, e me rio do imbecil que certa vez me acusou de pretensiosa, vejam só, porque além de escrever eu também fotografo. Mentes estreitas acham que uma pessoa deve se bitolar a um ofício, assim como cada qual no seu galho estável. Pois eu comemoro, quando encontro um artista que quer ser tudo ao mesmo tempo e não tem nenhuma mesquinhez tímida diante da vida. Miranda é um bom motivo, nesta semana, para dizer olé.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Arte y Parte - Brancusi

Para me desestressar, uso sempre a arte. As artes visuais, então, têm um poder imediato sobre mim: torno-me subitamente relaxada.
Desde ontem, folheio a revista Arte y Parte, que o amado trouxe da Espanha. A matéria inicial já me encantou por trazer obras do Brancusi (que eu amava desde a época em que conheci a sua Princesa X). Consegui pescar da internet duas imagens que estão na matéria: esta Musa adormecida, linda, perfeita, que um dia há de me fazer ir ao Georges Pompidou só para vê-la:









A outra peça - O beijo - traz uma diversa matéria-prima, mas é igualmente tocante, pelo seu primitivismo tão essencial.
Contemplar estas serenas obras, mesmo que através de reproduções fotográficas, é um método infalível para salvar o meu ânimo...

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Michel Leiris

Ainda na linha dos surrealistas e seguindo a atmosfera da França das primeiras décadas do século XX (com as inevitáveis ligações com a leitura recente de Duchamp e outras mais, esparsas, de capítulos retirados do livro de Carmen Verlichak, Las diosas de la Belle Époque), encontrei Michel Leiris, patafísico do grupo de Alfred Jarry. O seu livro A idade viril não é, porém, ficção - ou pelo menos, não completamente, já que se pretende autobiográfico. Escrito quando o autor tinha acabado de completar 34 anos, a atmosfera que daí emana é inspiradora pelas referências a óperas, textos literários (sobretudo Racine) e pinturas (principalmente Cranach). Os episódios íntimos, entretanto, perturbam ao expor um lado fragilizante. Alguém talvez possa considerar um ato de coragem, tamanha confissão escancarada - mas para mim ela mostra um ser apatetado, com angústias mesquinhas que derivam quase todas de um simples fato: considerar-se o centro do mundo. Diante de um comportamento assim, eu vejo como a humildade não se confunde com altruísmo, mas é antes de tudo um gesto saudável de distanciamento. Os obcecados por si  mesmos não aprendem a relaxar.
Leiris, no entanto, foi um artista, e aos artistas tudo parece válido, porque é aproveitado ou se converte em estética. Eis porque a leitura ao final agradou - mas de uma forma ambígua e grotesca, assim como este retrato do autor feito por Francis Bacon (e Bacon, aliás, não seria o "amigo pintor"sobre quem Leiris algumas vezes fala, mas ocultando a verdadeira identidade? Suspeito que sim. Nesse caso, o mistério é bem revelador).

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Babinski

Linda, a exposição do Babinski no Sobrado José Lourenço! Vale a pena conferir as aquarelas, gravuras e pinturas! Em cartaz até março.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

As reproduções

                                                         

         Sempre achei estranho o fato de que em nossa cidade (onde vivem ótimos artistas plásticos) algumas pessoas ainda comprem reproduções de telas famosas, em vez de adquirir uma obra exclusiva, com estilo próprio. Claro que às vezes, na impossibilidade de pagar por um Velásquez autêntico e amado, o indivíduo resolve encomendar uma cópia. Isso até se justifica no caso de uma imagem específica, sonho inviável de consumo, que pode (veja bem: pode) ser imitada com razoável exatidão, dependendo do artista contratado.  O que me parece incompreensível é quando essa compra se torna um hábito, a ponto de alguém cobrir as paredes da própria casa com telas clonadas de quadros famosos – e sem qualquer destreza nos trabalhos: os quadros geralmente são ridículos, paródias ou insultos à peça verdadeira.
         Há, por exemplo, certos estabelecimentos comerciais que têm essa preferência decorativa. Seus donos consideram um toque cultural pendurar imagens de estilos ecléticos e pensam que, quanto mais variada a gama de reproduções – quase todas muito bizarras –, mais “intelectual” será o ambiente. Num determinado café que gosto de frequentar, encontro ensaios impressionistas que, do nome, só deixam a impressão de que o artista quis imitar Monet. Numa loja de calçados, deparo com arremedos de Lautrec – e creio que esses quadros, com as mulheres no cancan que projeta as botas para cima, seriam uma boa ideia para o lugar, caso a pintura não tivesse escorregado: há um ponto em que a aquarela se confunde com nódoas de mofo na parede.
          Um restaurante ostenta reproduções de Vermeer, e aquela que é sua obra mais famosa aqui deveria se chamar Moça com brinco de pérola e paralisia facial. Bem ao lado deste rosto rígido, há uma cópia de Rembrandt, com cores tão esquisitas que talvez se intitule Autorretrato com hepatite. No consultório odontológico de um amigo, colocaram réplicas de Modigliani, com figuras que seriam muito fiéis, se ele tivesse pintado ETs... Também não deixo de lembrar as marinhas brutais, quase rupestres, que me foram apresentadas como versões do etéreo Turner, na casa de uma prima!
          São episódios extremos, bem sei – mas revelam o senso estrábico que boa parte do nosso público tem, na hora de consumir arte. Sem perceber a armadilha em que caem, as pessoas dão preferência ao “estrangeiro” (mesmo que este seja arremedado), em detrimento de obras locais, com valor estético e originalidade.

Tércia Montenegro (escritora, fotógrafa e professora da UFC)
(crônica publicada hoje no jornal O Povo. Disponível em http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/02/01/noticiasjornalopiniao,2776558/as-reproducoes.shtml)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Elas também amavam gatos

Por extensão das minhas leituras do momento, sou levada a conhecer a obra de algumas artistas plásticas da época surrealista, principalmente, e - adivinha? Elas também amavam gatos! É o que percebo por trabalhos que encontrei na internet. Confiram, por exemplo, esta fotografia tirada por Meret Oppenheim (que na verdade ficou famosa pelos objetos conceituais impactantes que elaborou, como a xícara peluda e o par de sapatos altos servido em travessa, no feitio de uma ave com as asas para cima).
Uma pintura delicada e poética de Leonor Fini comprova a mesma admiração por felinos - vejam o quadro abaixo:
 
Leonora Carrington (que não deve ser confundida com Dora Carrington) posou para a foto acima com um companheiro típico, enquanto que Frida Kahlo, já se sabe, convivia com muitos bichos e, portanto, não faltaria um gato em suas pinturas - como neste autorretrato de natureza dolorosa e bruta.
O que se conclui desse rápido passeio temático? Gato é boa companhia não somente para escritores. Entre pincéis e telas, ele também se sente muito à vontade...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Duchampianas

Comecei o ano impregnada de artes plásticas - desta vez, com Marcel Duchamp. Nas horas livres desse aprendizado, escrevo e tento organizar a papelada para o próximo semestre. Tenho muitos projetos e presságios, como sempre. Procuro não perder o foco - e talvez o melhor seja adotar a postura do "mestre" M.D, no que concerne à beleza da indiferença.

domingo, 18 de dezembro de 2011

De volta a Dalí (com uma pitada de Lorca) - ou o contrário

Tirei o fim de semana para saborear os efeitos da sexta-feira à noite, quando tive a alegria de me encontrar com os amigos Sérgio e Roberta. Não bastasse o jantar - com que Sérgio se firma como excelente chef, elegante e poético na criação de um menu inesquecível -, ainda recebi um maravilhoso presente, trazido da viagem espanhola que os amigos fizeram: Cartas escogidas, do García Lorca. Já comecei a ler parte dessa correspondência, que me confirma a ideia de que os artistas são avessos às coisas práticas e adeptos dos grandes tormentos da alma. Lorca, ainda estudante, mal suportava as exigências da família, para que ele  completasse os estudos e tivesse uma carreira formal. Assim ele desabafa numa carta dirigida ao pai: "A mi ya no me podéis cambiar. Yo he nacido poeta y artista como el que nace cojo, como el que nace ciego, como el que nace guapo. Dejadme las alas en su sitio, que yo os respondo que volaré bien." E, em outro momento, um pouco antes, sua reflexão sobre a existência atinge um rasgo dilacerante: "Mi tipo y mis versos dan la impresión de algo muy formidablemente pasional... y, sin embargo, en lo más hondo de mi alma hay un deseo enorme de ser muy niño, muy pobre, muy escondido. Veo delante de mí muchos problemas, muchos ojos que me aprisionarán, muchas inquietudes en la batalla del cerebro y corazón, y toda mi floración sentimental quiere entrar en un rubio jardín y hago esfuerzos porque me gustan las muñecas de cartón y los trasticos de la niñez, y a veces me tiro de espaldas al suelo a jugar a comadricas con mi hermana la pequeñuela (es mi encanto)... pero el fantasma que vive en nosotros y que nos odia me empuja por el sendero. Hay que andar porque tenemos que ser viejos y morirnos, pero yo no quiero hacerle caso... y, sin embargo, cada día que pasa tengo una duda e una tristeza más. Tristeza del enigma de mí mismo!"
Essa leitura de Lorca invariavelmente me leva de volta a Dalí, cujo Diário de um gênio conheci poucos meses atrás (confira os comentários neste mesmo blog). Óbvio que são dois artistas distonantes, com temperamentos e estilos bem diferentes - mas, se existe uma atmosfera nacional para a criação de gênios poéticos, sinto que ambos compartilham da mesma bênção e se tornam irmãos em algum ponto inominável. Aliás, para adensar ainda mais essa sensação, estou com dois filmes à espera para hoje e amanhã: Ensaio de um crime, do Buñuel, e Poucas cinzas, de Paul Morrison. Os dois foram recomendados pelo Sérgio e, embora eu já conhecesse o primeiro, senti uma imensa vontade de revê-lo agora (principalmente para inserir o Buñuel na trindade espanhola). Quanto ao segundo filme, parece que distorce um pouco as relações entre Dalí e Lorca, em nome de um sensacionalismo homossexual (mas ainda não o vi, para opinar a respeito). De toda forma, a gente sabe que muitos filmes de pretensão histórica escorregam na liberdade dramática, pois de perto nenhuma vida tem glamour hollywoodiano. É preciso assistir a esses filmes com ressalvas, portanto. Ontem, por exemplo, eu vi A última estação, que trata dos últimos dias de Tolstói. Apesar da ótima caracterização do ator principal, do cenário e figurino perfeitos, fiquei incomodada com o fato de os atores falarem inglês - e também tenho que dizer que a tal Sofia, esposa do escritor, não tinha um comportamento verossímil em certas cenas...Mas - o que se pode fazer? É preciso dar um desconto, porque muita coisa surge devido às intenções comerciais que motivam essas obras.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Finalizando...



Hoje estou finalizando duas leituras. Sobre uma delas já comentei aqui: o Diário de um gênio, do Dalí, de onde tiro esta passagem para boas reflexões: "Existencialistas sí lo somos, pero a la manera española; existencialistas siempre y cuando todo lo existente haya sido ya espiritualizado."
A partir deste trecho vejo uma ligação - à primeira vista impossível - entre a abundância irreverente deste pintor e a atmosfera objetiva e cruel dos textos de Flannery O'Connor (pois que minha segunda leitura foi dos Contos completos desta escritora). A sua vida, discreta, breve e doentia, mergulhada num catolicismo fervoroso, não deixou que nenhum sentimento mesquinho resvalasse para sua arte. Os contos de Flannery não são jamais dogmáticos ou moralistas, provavalmente porque ela também sabia espiritualizar tudo o que era existente e, a partir dessa prática, viu que não já era preciso ostentar nenhuma bandeira ideológica. Assim, essa tal "maneira espanhola" não se aprisiona geograficamente, apesar do orgulho de Dalí.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Exposição Diálogos

Não dá para perder, amanhã, a abertura da exposição do Fernando França, no Centro Cultural Dragão do Mar. Nessa sua atual fase, de telas gigantescas e hiperrealistas (com uma ótima influência do Lucian Freud), o meu amigo França dialoga com a arte de muitas outras figuras importantes dos territórios plásticos cearenses. Aqui ao lado, vocês podem conferir a imagem de um autorretrato dele. Para saber mais, confiram a matéria publicada hoje no Diário do Nordeste:
http://diariodonordeste.globo.com/m/materia.asp?codigo=1030424

terça-feira, 5 de julho de 2011

Louise Bourgeois

Pesquisando obras da artista, encontrei na internet imagem desta sua peça impressionante, Arch of Hysteria, de 1993.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Pelas paredes




            As paredes de minha casa não são apenas sustentáculos do teto ou fronteiras métricas para cada aposento. Elas inauguram espaços para a existência de livros e quadros. Sim, pois não há convívio mais harmonioso do que entre tais objetos. Sinto-me realmente feliz dentro de um ambiente que alterne bibliotecas com pinturas. Nas prateleiras ou nos pregos, as obras descansam verticais, à espera de contemplação. São novas janelas, abertas para diversas e artísticas paisagens.
            Desde que me lembro, sou uma apaixonada pelo olhar – sobre palavras ou imagens, igualmente. Assim, comecei a comprar livros e também réplicas de quadros. Na minha ânsia de adolescente, eu não tinha grande critério, coisa que se consegue aos poucos. Mas recordo muito bem a primeira tela autêntica que comprei, e já de um ótimo artista. Na época, Fernando França era meu colega no mestrado em Letras, e dele adquiri um quadro azul, da sua série dos gatos.
            A experiência de ter um original foi viciante. Não  me tornei colecionadora nem especialista, mas ao menos comecei a observar com atenção a qualidade das imagens. Passei a visitar museus e galerias, em busca de arrebatamentos. Aprendi os muitos modos de olhar uma pintura ou fotografia, descobrindo detalhes e nuances a cada captura de vista. E também, claro, ganhei outras peças para minha casa, de vários materiais e formatos. Hoje vivo rodeada por vários quadros, desenhos e esculturas do Glauco Sobreira. Tenho duas telas do Weaver Lima e, na cozinha, três pratos pintados pela Mariza Brito. Na geladeira, ímãs reproduzem obras da Frida Kahlo ou azulejos lusitanos: servem para pregar avisos mas ao mesmo tempo seguram cartões-postais, desenhos e charges que recorto, a depender da circunstância.
No quarto de hóspedes pendurei um tapete vermelho que meu pai trouxe da Índia. A atmosfera ficou perfeita, junto com as almofadas, a estante de livros e o toca-discos com alguns LPs. Pelas paredes, estão ainda exemplos de artesanato anônimo, a preencher prateleiras e nichos secretos. É o caso do ex-voto, uma cabeça que comprei no mercado, por ser parecidíssima com a fisionomia de Drummond. Ela fez um belo par com uma peça africana encontrada na feira das nações. E no meu escritório – agora no chão –, coloquei uma réplica da roda de bicicleta, ready-made do Duchamp.
Finalmente, nas minhas paredes exponho também as fotos que realizo, num painel disposto para esta finalidade, na sala. São as únicas imagens rotativas de toda a casa:  ponho-as à vista para estudar, por temporada, as características de seus êxitos ou fracassos. Como sua autora, tenho permissão e rigor para substituí-las e até descartá-las. A obra dos outros artistas, ao contrário, eu sempre recebo como definitiva – e sagrada.

                                                                                 Tércia Montenegro
(fotógrafa, escritora e professora da UFC)

 * crônica publicada hoje na coluna Opinião do jornal O Povo. Disponível também em http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2011/06/22/noticiaopiniaojornal,2258970/pelas-paredes.shtml