LIVROS E BICHOS

Este é o blog da Tércia Montenegro, dedicado preferencialmente a livros e bichos - mas o internauta munido de paciência também encontrará outros assuntos.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

XVI Unifor Plástica

Amigos,
Estou com uma fotografia integrando a XVI Unifor Plástica. A exposição fica em cartaz de hoje até o dia 22 de dezembro, no Espaço Cultural Unifor (Av. Washington Soares, 1321). Apareçam!
 

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Finalizando...



Hoje estou finalizando duas leituras. Sobre uma delas já comentei aqui: o Diário de um gênio, do Dalí, de onde tiro esta passagem para boas reflexões: "Existencialistas sí lo somos, pero a la manera española; existencialistas siempre y cuando todo lo existente haya sido ya espiritualizado."
A partir deste trecho vejo uma ligação - à primeira vista impossível - entre a abundância irreverente deste pintor e a atmosfera objetiva e cruel dos textos de Flannery O'Connor (pois que minha segunda leitura foi dos Contos completos desta escritora). A sua vida, discreta, breve e doentia, mergulhada num catolicismo fervoroso, não deixou que nenhum sentimento mesquinho resvalasse para sua arte. Os contos de Flannery não são jamais dogmáticos ou moralistas, provavalmente porque ela também sabia espiritualizar tudo o que era existente e, a partir dessa prática, viu que não já era preciso ostentar nenhuma bandeira ideológica. Assim, essa tal "maneira espanhola" não se aprisiona geograficamente, apesar do orgulho de Dalí.

Contra o suicídio II



Quem leu minha crônica intitulada "Contra o suicídio", publicada há cerca de um mês e disponível neste mesmo blog, pode agorar conferir como a atmosfera de ficção combina com as surrealidades da vida. Pois não é que a hipótese de uma censura ao termo suicídio começa a se esboçar realmente, para falar da morte voluntária de figuras famosas? O primeiro passo nesse sentido foi dado na mais recente biografia de Van Gogh, dos autores Steven Naifeh e Gregory White. Nessa obra, uma nova versão para o fim da vida do pintor é anunciada: Van Gogh não teria dado um tiro em si mesmo mas, ao contrário, foi baleado por disparos acidentais feitos por dois jovens. Confira a matéria no endereço
http://diversao.terra.com.br/arteecultura/noticias/0,,OI5422655-EI3615,00-Nova+biografia+de+Van+Gogh+diz+que+o+pintor+foi+assassinado.html
Agora será que podemos aguardar novas pesquisas reveladoras, desmentindo o suicídio de outras pessoas? Tudo é possível!
Em tempo: a ilustração para esta postagem traz os sapatos de Van Gogh porque, conforme dizem os especialistas, ninguém se suicida calçado (sic!).

domingo, 16 de outubro de 2011

Asas do desejo

Acabei de assistir ao lindíssimo filme do W.Wenders, Asas do Desejo. Poético, maravilhoso na fotografia e no criativo enredo - vale a pena demais!

sábado, 15 de outubro de 2011

Dia dos professores!


As outras profissões que me perdoem, mas professor é fundamental!

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

De Evita para Macedonio


DE EVITA PARA MACEDONIO

 Minha primeira impressão de Buenos Aires foi esta: a gigantesca foto de Ernesto Sábato num painel da 9 de Julho, o meu grito de reconhecimento e o taxista confirmando: “Sim, este é o escritor Sábato”. De imediato me perguntei se em alguma hipotética Fortaleza um dia eu poderia encontrar, por exemplo, uma imensa parede com o retrato de Moreira Campos, e se nessa cidade utópica os taxistas e todas as demais pessoas conheceriam o rosto de um escritor com tanta facilidade quanto hoje têm para identificar a feição de humoristas. Para isso, seria necessário que a leitura estivesse tão presente no cotidiano cearense como está na vida dos portenhos.
Não somente as inúmeras livrarias (com os estilos, tamanhos e acervos os mais variados) criam a atmosfera mágica de Buenos Aires – mas os livros também estão em outros lugares, nas praças, nos cafés, no metrô... Sempre há alguém lendo algo, e esse “algo” não é autoajuda ou obra teórica que se tem de concluir para uma prova. Lêem-se poemas, romances, contos, no meio da rua, em restaurantes, dentro de floriculturas e quitandas.
O hábito de leitura na capital argentina é tão exposto e visceral quanto suas vibrações políticas. Em uma semana de viagem, encontrei três passeatas de protesto (longas e bem organizadas) e percebi que os cartazes de denúncia, as palavras de ordem grafitadas na calçada, são parte da paisagem e do espírito do povo. Talvez uma coisa realmente leve à outra, e a consciência política se ligue à voracidade leitora. Buenos Aires não esquece o terror de sua ditadura – na mesma medida com que também não esquece os grandes autores que já abrigou. Borges, Cortázar, Arlt, Bioy Casares, Alfonsina Storni e muitos outros continuam a ser seu motivo de orgulho.
Em províncias vizinhas, a atmosfera se transforma, mas o comportamento persiste. San Isidro, por exemplo, tem como uma das principais atrações a casa-museu em que residiram as irmãs escritoras Victoria e Silvina Ocampo. Por ali passaram incontáveis artistas – e creio que o ambiente ainda é favorável a encontros mágicos, senão vejam: na hora em que chegamos para a visita estava no local apenas mais um estrangeiro, visivelmente indiano. Ele iniciou uma conversa num inglês estropiado, para nos dizer que era neto do Rabindranath Tagore (prêmio Nobel de Literatura), que estivera hospedado na casa, décadas antes!
Com tantos fluxos literários abençoando a viagem, no cemitério da Recoleta não resisti a um impulso. Roubei flores do túmulo de Evita (que, como vocês imaginam, estava superlotado de plantas), para deixá-las no austero jazigo de Macedonio Fernández – outro grande escritor argentino.

Tércia Montenegro (escritora, fotógrafa e professora da UFC)
Texto publicado hoje no jornal O Povo. Disponível também em http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2011/10/12/noticiaopiniaojornal,2314162/de-evita-para-macedonio.shtml)