LIVROS E BICHOS

Este é o blog da Tércia Montenegro, dedicado preferencialmente a livros e bichos - mas o internauta munido de paciência também encontrará outros assuntos.
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sexta-feira, 15 de março de 2013

O predestinado - A cada 15

De volta de Sampa, onde encontrei amigos e vivi uma programação intensa (nada menos do que quatro exposições, três filmes, duas peças teatrais e um concerto, além da visita a igrejas, cemitério, jóquei clube etc etc), tento retomar a rotina, já com mil prazos pendentes - todos a gerar aquela "angústia gostosa" de a gente não saber se consegue e no final acabar conseguindo. Uma parada neste blog, portanto, não será impossível, ao menos por duas semanas. Mas por enquanto recomendo o site da Grua, minha editora - e no projeto "A cada 15", está o meu texto O predestinado, nesta quinzena.
Quem quiser, pode ler em http://www.grualivros.com.br/a-cada-15/o-predestinado-tercia-montenegro

quarta-feira, 13 de março de 2013

Saltos do Paraná





SALTOS DO PARANÁ

Prudentópolis não cabe numa crônica: é por isso que volto ao tema. Para além de suas belezas ucranianas, esta terra é conhecida pelas cachoeiras gigantes e pela festa nacional do feijão preto, em agosto. Como viajei no carnaval, deixei de conhecer a hiperbólica feijoada (que, dizem, já entrou nos recordes) – mas, em compensação, tirei um dia inteiro para andar pela zona rural. Avisei ao guia do meu interesse por igrejas bizantinas, incrustadas nas áreas agrícolas e faxinais. Óbvio, porém, que não fiquei imune aos encantos da paisagem.        
Aprendi a distinguir as cores das plantações de soja, café e fumo. “As folhas do fumo são amarelas; depois de colhido, o produto vai para a estufa até ficar seco e quebradiço. Em seguida, a empresa tabagista lhe acrescenta umas quinhentas substâncias cancerígenas e o prepara para a venda” – comentou o guia, enquanto acelerava o jipe. Estávamos a caminho do Salto São João, passando pelo povoado Galícia, com sua bela igreja de São Miguel em frente a uma casa de jardim colorido por hortênsias e crianças loiras.
Enchi meus olhos com outras flores, dálias, girassóis – e mais eucaliptos e pinheiros às margens do caminho. Rumo ao Salto São Sebastião, plantações de milho nas encostas íngremes deram origem à expressão “plantar com espingarda e colher com laço”, mostrando o esforço de semear em ângulos tão difíceis. Mas aquela era a Serra da Esperança, então tudo podia acontecer, inclusive o aparecimento da Igreja da Transfiguração de Nosso Senhor, redonda, com cinco cúpulas brilhando de luxo numa zona agrícola...
Estava chovendo, e a trilha que nos levava à principal atração, o Salto São Francisco, cobriu-se de lama. Eu me agarrava a galhos e pedras, tentando não voltar com uma fratura exposta. Em certa altura do trecho, usei um cajado como bengala, sentindo-me uma espécie de feiticeira e lembrando que Visconde de Taunay por ali passara em 1886, também debaixo de forte chuva. Tentava me motivar, pensando que o autor de Inocência avançara por 6 km a pé “em local muito escabroso e difícil”, conforme escreveu no livro Paisagens brasileiras.
Quando finalmente contemplei o Salto gigante, com quase duzentos metros de queda, senti o êxtase do viajante realizado. Num segundo, a neblina se desfez, abrindo a visão da chapada com seu véu de água interminável. Aí a natureza me disse coisas na linguagem da imensidão – que, ao contrário do que se pensa, é muito discreta e suave. 

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo)



quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Estreia "O Trem das Onze" em São Paulo





Memória, mistério e silêncio e a espera por um trem que nunca vem. Ou já passou?

Inspirado na obra "Linha Férrea" da escritora Tércia Montenegro, premiada pela revista CULT, a peça retrata as tragédias que aconteceram numa velha ferrovia. Os personagens encontram-se em situações-limite. 

O espetáculo busca estudar o comportamento do ser humano perante uma situação limite, fazendo com que este indivíduo revele seus instintos mais primitivos, evidenciando um lado que, quase sempre, é desconhecido pela sociedade, esta mesma que o faz carregar uma culpa sufocante e mortal.

Os caminhos se cruzam-se em histórias como a de um filho que pretende fazer um inusitado passeio com sua madrasta tetraplégica, uma procissão nos trilhos ou de uma bailarina que sofre de amor, passando por um homem que paga por um crime do passado, o administrador da ferrovia atormentado, uma presa que sonha em ser enterrada de santa e uma menina que deseja vingança. Todos estes personagens estão ligados . Seus caminhos se cruzam.

Um passeio, cercado de pessimismo, crueldade, misticismo e vingança.


Elenco: Beatriz Aguera, Edgar Cardoso, Érica Ribeiro, Gizelle Faria, Lucas Sancho, Rodrigo Morais e Thaize Pinheiro.

Dramaturgia e Direção: Lucas Sancho

Assistência de direção: Thaize Pinheiro

Preparação Vocal e Arranjos de Coro: Carol Capacle

Direção de Arte: O Grupo

Músicas: Daniel Groove

Serviço: de 5 a 27 de Março - Terças e Quartas às 21h - Espaço Cultural Pinho de Riga (Rua Conselheiro Ramalho, 599)

Contato: 11 97960.0180 (Lucas Sancho)


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Conto sobre futebol

Amigos,

Vejam esta notícia sobre mais uma antologia ótima, organizada pelo Ruffato. Desta vez, o tema é futebol, e eu me sinto muito feliz em poder participar deste "time" (com o perdão do trocadilho inevitável).
Vamos aguardar, que logo, logo essa coletânea estará pronta!

http://www.publishnews.com.br/telas/clipping/detalhes.aspx?id=72256


Seleção brasileira de contos

O Estado de S. Paulo - 23/02/2013 - Maria Fernanda Rodrigues
Coletânea organizada por Luiz Ruffato será lançada em Frankfurt
Luiz Ruffato organizou e sua editora alemã, a Assoziation, lançará na Feira de Frankfurt, em outubro, a coletânea Entre as Quatro Linhas - Contos Brasileiros Sobre Futebol, adiantou a coluna Babel. A coletânea terá contos de 15 autores: Mário Araújo, Fernando Bonassi, Ronaldo Correia de Brito, Eliane Brum, Flávio Carneiro, André de Leones, Tatiana Salem Levy, Adriana Lisboa, Ana Paula Maia, Tércia Montenegro, Marcelo Moutinho, Rogério Pereira, Carola Saavedra, André Sant’Anna e CristovãoTezza. Além disso, a coluna afirmou que a renomada Suhrkamp, casa de Brecht e mais recentemente de Marcelo Ferroni e Daniel Galera, prepara revista com o perfil de editoras, editores e autores brasileiros com quem trabalha.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Conto no Cândido

Amigos,

Está disponível para leitura, no site do jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná, o meu conto Um gesto raro, com lindas ilustrações de José Aguiar. O acesso se faz pelo endereço http://www.candido.bpp.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=316

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Gatos

"Caviloso. Essa palavra saiu de moda mas deveria ser reconduzida, não existe melhor definição para a alma do felino. E de certas pessoas que falam pouco e olham. Olham. Cavilosidade sugere cuidado, cave - aquele recôncavo onde o vinho envelhece. Na cave o gato se esconde, ele sabe do perigo. Mas o cachorro se expõe, inocente."
"(...) indolente, companhia voluptuosa dos contemplativos. Das bruxas cismarentas. Dos amantes da idade da razão e depois ainda, memória e cinza. Amei meu gato quando descobri Baudelaire, viens mon chat, sur mon coeur amoureux..." (Lygia Fagundes Telles)

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O Cândido da BPP





Amigos,

O jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná, é (junto com o Rascunho) um dos veículos mais interessantes de discussão sobre literatura em nosso país. É possível ler suas matérias on line - e nesta última edição eu tive o prazer de encontrar o meu O tempo em estado sólido na seção Estante Nacional (em ótima companhia, com Ana Miranda, Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles e outras mulheres escritoras maravilhosas). Quem quiser pode conferir em http://www.candido.bpp.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=309

domingo, 30 de dezembro de 2012

O pesadelo de Chico Buarque

Amigos,

Está disponível, em pdf, o meu artigo intitulado "O pesadelo urbano nos romances de Chico Buarque", publicado pela Revista Todas as Letras (Qualis A - nacional). Quem quiser, pode conferir no site
http://editorarevistas.mackenzie.br/index.php/tl/index

Um ótimo 2013 para todos!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

IX Semana de Letras da UFC

A IX Semana de Letras da UFC recebe, até 15 de dezembro, inscrições de trabalhos acadêmicos para as modalidades comunicação oral, oficina e minicurso, e de apresentações culturais para as modalidades poesia, música, teatro, dança, show de humor, artes circenses.
O evento traz o tema Letras e Perspectivas: Ensino, Pesquisa e Extensão e é uma promoção do Centro Acadêmico Patativa do Ceará, do Curso de Letras da UFC. A IX Semana de Letras acontecerá na área 1 do Centro de Humanidades, no Campus do Benfica - UFC, no período de 8 a 11 de janeiro de 2013.
Mais informações podem ser encontradas no edital ou no blog do evento ou solicitadas pelo e-mail: academica.semanadeletras2012@gmail.com.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

IX Encontro Interdisciplinar de Estudos Literários

Amigos,

Na próxima segunda-feira, dia 26, começará o IX Encontro Interdisciplinar de Estudos Literários, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da UFC. A programação completa pode ser conferida pelo endereço http://ixinterdisciplinar.blogspot.com.br/p/programacao.html
Às 11h, farei uma conferência sobre medo e prazer na fruição da obra artística. Logo em seguida, haverá o lançamento do meu livro de crônicas Os Espantos. Quem perdeu o evento da Bienal pode aproveitar a ocasião para adquirir a obra por lá.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Do farelo ao pão - Accademia della Crusca e Padaria Espiritual

Embora os meus impulsos autodidatas não sejam lá muito disciplinados, tento dar seguimento aos estudos de italiano, mesmo após ter concluído a Casa de Cultura (bem sei que se perde fluência rapidinho - olhaí o meu francês para provar isso...). Assim, ontem eu estava mergulhada numa História da Literatura Italiana e, nessa viagem pelo medievo, li a respeito da Accademia della Crusca, que foi criada em Florença, no século XVI, e ainda hoje subsiste como uma importante instituição linguística. Quem quiser saber mais a respeito pode consultar o site oficial, que é riquíssimo de informações sobre a língua italiana: http://www.accademiadellacrusca.it/it/frontpage
Mas o que eu achei interessante nesse estudo foi descobrir que a tal Accademia della Crusca ganhou esse nome porque os seus primeiros representantes não queriam ser pomposos acadêmicos - de forma que escolheram a ideia do farelo (crusca) como indicativo de que se ocupariam de miudezas, dentro de um espírito irreverente, inclusive. Ora, isso imediatamente me lembrou da proposta da nossa Padaria Espiritual, movimento tão cearense e criativo! É de se indagar se existe um vínculo proposital entre os acadêmicos "farinheiros" da Itália de 1500 e os nossos "padeiros". Óbvio que, se houver uma influência direta, isso em nada diminui a importância da Padaria Espiritual (que, aliás, já começa com o mérito de ter um nome bem mais cativante do que Academia do Farelo, hehehe). Provar essa ligação seria muito mais uma curiosidade do que um golpe para ferir algum princípio de originalidade (se é que isso existe, de fato). Alguém pode argumentar, entretanto, que a ideia da arte como "alimento para a alma", seja na forma simbólica de pão, farelo ou migalhas, existe na humanidade desde sempre e não há como estabelecer quem primeiro formulou essa metáfora. Bem, essa opção me parece um tanto comodista, embora não de todo equivocada. Eu ainda acredito que uma pesquisa pode trazer mais material de discussão. Este é um caso de consulta para o professor Sânzio e para especialistas em italiano! 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Leia com moderação

Amigos,

Logo, logo chegará às livrarias a antologia 50 versões de amor e prazer, organizada por Rinaldo de Fernandes e publicada pela Geração Editorial. São contos eróticos escritos por 13 autoras brasileiras (eu e Ana Miranda somos as "representantes cearenses"). No início, para mim foi complicado superar a timidez diante de certos temas e palavras, para me dedicar às quatro histórias picantes que aqui estão publicadas. Durante um tempo, passei por hesitações, até me lembrar: arte é território de liberdade e sempre existe uma maneira interessante de tratar qualquer assunto, mesmo aqueles que à primeira vista inspiram tabu.
O resultado dessa experiência foi libertador; creio que ainda farei várias outras narrativas na mesma linha, nem que seja por um simples exercício literário...

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Javier, Javier

Estou acabando de ler Os enamoramentos, do Javier Marías. Fiz uma pausa nos russos porque não resisti a esse romance do autor que, para mim, é o que há de melhor na prosa em língua espanhola da atualidade. Entretanto, devo dizer que o livro me decepcionou um pouco. Estava acostumada à qualidade de obras como Quando fui mortal, Coração tão branco e Amanhã, na batalha, pensa em mim - histórias que sempre me faziam sair de sua experiência com aquele embevecimento de admiração pelo arranjo, pelas soluções narrativas e, sobretudo, pela capacidade reflexiva. Este último ponto talvez seja o único que permanece íntegro n'Os enamoramentos, e afinal é o que nos faz reconhecer o estilo de Javier Marías, que tem esse hábito de paralisar a ação para fazer incursões digressivas interessantes - no que lembra, às vezes, José Saramago e Villa-Matas (embora este tenha certa desvantagem estética). No restante, porém, o romance não me convence. Tive a sensação de que o início, quando a protagonista se apresenta como funcionária de uma editora e passa a descrever os autores como caricaturas maníacas, nada mais é do que uma espécie de vingança ou recado do escritor para os seus pares. Não que eles não mereçam a crítica, mas achei que ela entrou de maneira forçada, no livro. Além disso, existe o grave problema de que as vozes da narrativa são todas iguais; personagens os mais diversos caem em reflexões idênticas, usando as mesmas palavras, inclusive. Essa "preguiça" de especificar os temperamentos das figuras literárias acaba explicitando demais o próprio autor, e talvez não por acaso um dos personagens se chame Javier, e a protagonista, Maria. Conhecendo os outros livros deste espanhol, sei que a presença autobiográfica faz parte de seus enredos (e isso, aliás, nunca foi um defeito). Mas a monofonia desse romance não me parece uma estratégia e, sim, uma carência.
Ainda tenho por ler, em minhas estantes, a trilogia Teu rosto amanhã. Espero que ela me resgate um antigo Javier Marías, mais cuidadoso com suas estruturas literárias.

domingo, 7 de outubro de 2012

As afinidades eletivas, por Urik Paiva

As afinidades eletivas
por Urik Paiva

Os gritos dos galos partidários rasgam a manhã para advertir: estamos em período eleitoral. As militâncias soam militares no fazer levantar da cama e pôr o mau humor na rua para ouvir aqueles jingles, os quais acredito terem sido compostos por alguém como Tom Jobim; receber panfletos com a bela cara de políticos que mais poderiam ser concorrentes a Mister Suécia; ser quase fatalmente atravessado por uma carreata ou bicicleata em que os condutores são pessoas tão felizes que é de se acreditar que tenham experimentado todo o Kama Sutra antes de sair de casa; ser abduzido nas esquinas por bandeiras gigantes que ficariam frouxas enrolando a Catedral; ter os tímpanos sodomizados por discursos megafônicos que deixariam Beethoven ainda mais surdo, ele que era completamente surdo; e escutar um sem tamanho absurdo de promessas que talvez envolvam a devolução do Paraíso a Adão e Eva.

Dois amigos votam em candidatos diferentes: perseguem-se pelas ruas empunhando peixeiras; quebram os dentes um do outro com exemplares d’O Príncipe, de Maquiavel. Marido e mulher possuem divergências políticas: cerceiam-se de contato íntimo enquanto não chegam a um denominador eleitoral comum; praguejam-se de Margaret Thatcher e Karl Marx dependendo de como analisam o excedente de produção.

Loirinha fritada pelo sol, Fortaleza está aquartelada pelo que há de mais dantesco na democracia. Nós, os misantropos políticos, que sempre votamos nulo para rainha do colégio e hoje não sabemos quem são os síndicos de nossos próprios prédios, sofremos o bullying de outubro - esse, sim, o mais cruel dos meses – que se aproxima.

Busco uma evasão possível diante das agruras de um tempo que poderia ser belo em vez de bélico. Ainda há rei em Pasárgada? Porque se houver prefeito, há também campanha e não será possível escapar do perturbador bochincho eleitoral.

A solução para meu ranço vem no correr de um exercício à la realismo fantástico. Dentro da biblioteca, o mais prolífico dos refúgios, sou o (e)leitor que recruta seu rol de afins. Tire o seu título de eleitor do caminho que eu quero passar com meu relicário ficcional.

A overture de um intrigante fenômeno mental se dá quando penso em Iracema, signo literário de nossa terra, oferecendo-se à governança da capital cearense. O Partido Tabajara poderia, caso deixe de lado as desavenças políticas, se unir a toda a nação Tupi e conseguir bastante tempo de televisão para o horário eleitoral. Os mais conservadores não vão aprovar a inclinação da virgem à liberação do consumo de alucinógenos, como o Segredo da Jurema. Enquanto os mais liberais considerarão um retrocesso a militarização da Guarda Municipal com arco e flecha.

A figura da personagem de José de Alencar se desfaz em minha mente, dando lugar ao discurso inflamado de uma Maria Moura sob o sol da Praça do Ferreira a instigar toda a sorte de mulheres a um levante feminista derradeiro, para aflição do eleitorado masculino. Para deixar a chapa um tanto mais polida, mas sem perder o caráter enfático, o arranjo partidário poderia incluir a Capitu de Machado de Assis, sendo a dissimulação dos olhos de ressaca um fenômeno não raro na política. A mulher de Bentinho, através da condição do esposo, poderia alavancar muitos votos naquela região populosa do José Walter, cujos chavelhos dos homens são vigorosos indicativos de um determinado status quo.

De Machado, ainda cabe considerar, para nosso inusitado pleito, Simão Bacamarte, defensor pétreo do equilíbrio e da normalidade. Entre suas propostas, a ampliação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPES), variando-os tematicamente: o CAPES para os perigosamente descuidados, para os excessivamente gulosos, para compulsivos sexuais, para leitores de Paulo Coelho, para pretendentes a ascensoristas etc.

Retrocedendo aos primórdios do cânone literário ocidental, temos, do Partido Homérico, o heroico Odisseu, que promete construir faixas de trânsito exclusivas para quem está voltando de Ítaca e acabar com o problema da superlotação do transporte público com enormes cavalos de madeira que comportariam toda a massa produtiva. Não teríamos o Cavalo de Tróia, e sim o Cavalo do Mucuripe, o Cavalo do Bom Jardim, o Cavalo da Serrinha etc.

Um mau candidato seria o sanguinário príncipe Hamlet, que nem numa surpreendente conversão ao republicanismo poderia dar certo como nosso alcaide, haja a quantidade de interesses pessoais que arrolaria à máquina administrativa. O que daria muito sentindo à afirmação: Há algo de podre no Município de Fortaleza. Mas não restam dúvidas de que Horácio, sempre lúcido, pudesse ocupar com louvor alguma secretaria.

Também não seria acerto da cidade eleger Pinóquio como prefeito. Além de imaturo e ambicioso, este cara de pau possui uma nociva apetência ao embuste. Talvez mentisse tanto que seu nariz crescesse do Paço Municipal ao Terminal do Siqueira.

O caso Lewis Carrol é intrigante. Se por um lado há a débil e inexperiente Alice, boa de coração, mas cujo programa de governo é o mais fora da realidade possível, apresentando uma cidade inexequível, tem-se por outro o Coelho Branco, cuja promessa de terminar todas as obras no tempo certo soaria agradável ao eleitor alencarino.

Compondo a lista dos candidatos mais sérios e comprometidos, há o surpreendente Agilulfo Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, mais conhecido como O Cavaleiro Inexistente, que, segundo o romance de Italo Calvino, era o mais austero dos paladinos de Carlos Magno. Sua característica marcante é que, dentro da deslumbrante armadura branca, ele simplesmente não existe. Trocando o metal da armadura pelo linho do burocrático paletó, o nosso Prefeito Inexistente faria uma gestão de visível competência fiscal, digna do panteão de honra do Portal da Transparência. Literalmente. 
 
Do Novo Testamento para as urnas de nossa capital. Jesus Cristo é de longe o campeão das promessas miraculosas. Caro eleitor, cara eleitora, este homem não vai transformar a rua da sua comunidade na Champs-Élysées, não vai despoluir o canal do seu bairro andando por cima das águas, não vai liberar espaço no São João Batista ressuscitando os mortos, não vai multiplicar seu mercantil, não vai dobrar sua cerveja no bar. Este homem, assim seja, talvez nem passe das prévias com Barrabás.

Bem à esquerda do espectro político, Oliver Twist garante governar para os miseráveis, ampliando o acesso a programa de inclusão social, o que deixará a classe média da Regional II um tanto descontente. Além disso, seu primeiro escalão seria todo composto por outros órfãos de Dickens.

À deriva em pensamentos surreais, imagino um jovem Werther que, abismado com o déficit público, cometeria suicídio nos primeiros dias de mandato. Mil e uma propostas para sobreviver em Fortaleza, este poderia ser o programa de governo de Sherazade. O Pequeno Príncipe, aparentemente ingênuo e pueril, talvez seja na verdade um corrupto, fazendo valer a máxima “O essencial é invisível à prestação de contas”. Caso chegasse à chefia do Executivo, o autocomplacente Leopold Bloom criaria mais um feriado municipal, o Bloomsday, em 16 de junho. Hannibal Lecter promete acabar com o problema da fome em Fortaleza. E, seja lá qual for o resultado das eleições, Emma Bovary implora a nomeação do Doutor Charles, seu marido, como plantonista do IJF, deixando-o pouquíssimo tempo em casa.

Agradando a todas as classes sociais, a Mulher do Médico, aquela que permaneceu enxergando diante da terrível epidemia de cegueira relatada por José Saramago, pode ser a grande surpresa destas eleições. Mantendo-se lúcida em meio à aflição coletiva, ela prestou-se, como servidora empossada pelas circunstâncias, a guiar os cegos pelos dissabores de um mundo autoconfinado. Mas nós não somos cegos, retrucariam os opositores da candidatura, que teriam apenas um constrangedor silêncio como réplica.

Chegamos ao fim do conclave fictício com a condenação a candidato do desavisado Joseph K., o bancário que, em O Processo, é acusado de cometer um crime a ele desconhecido. O personagem talvez expressasse o mesmo assombro ao ser avisado de que foi repentinamente declarado, por ampla maioria democrática, prefeito da cidade, sem nem mesmo saber que estava concorrendo. A democracia tem dessas arbitrariedades.

Curiosamente, é Kafka quem me retira de minha própria invenção, antes mesmo do findar do pleito, e me faz retornar a Fortaleza real, mas não menos absurda que esta outra de dentro do papel. Não seriam essas duas Fortalezas uma só? No fim das contas literárias, deixo à cidade a responsabilidade do espetáculo narrativo de contar a si mesma. 
 
(crônica publicada hoje no jornal O Povo. Confiram também no blog do autor, abstrato armado

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Literatura russa

De novo, mergulho na arte eslava - dessa vez, com a Nova antologia do conto russo, publicada pela editora 34. Poucas coisas são tão boas para relaxar...

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

René Crevel

Acabei de ler (novamente em versão de língua espanhola, resultado de uma viagem a Buenos Aires, dois anos atrás) Babilonia, de René Crevel. O livro é um marco da prosa surrealista, mas não parece "descosturado" como Nadja, por exemplo. Neste romance, Crevel associa os absurdos à mentalidade de uma garotinha - e digamos que o vertiginoso surreal fica, por assim dizer, um pouco justificado. No decorrer da história, o relato vai se tornando mais e mais bizarro e engraçado, além de poético. Há passagens lindas, como esta que traduzo: "(...) amanhã cruzará a canícula uma mulher com um xale de vento. Será a forasteira no umbral das ruas. Seu companheiro, o pai, terá os olhos amarelos, como se estivessem feitos de um metal que não é ouro. Os farrapos colocados nas janelas, em honra a este casal, vão estalar com todas as suas cores, e o verão, por um dia, por um único dia que nunca poderão esquecer as meninas que o tenham vivido, o verão não suportará a mínima precaução de penumbra." (pp.106-7)
A vida de Crevel é outra história de exagero e dramaticidade. Não dá para resumir; quem tiver interesse, busque mais informações. E quem quiser, também, pode conferir os capítulos de uma obra sua, Mon corps et moi, na língua original. Vejam no site http://melusine.univ-paris3.fr/CrevelMonCorps.html

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

M. Blecher

Amigos,

Por uma dessas confluências cósmicas e virtuais, eu estava vasculhando a internet à procura de traduções do  romance de M. Blecher, citado na postagem abaixo, e encontrei o blog do Fernando Klabin, brasileiro que mora na Romênia (e tem uma pousada em Draguseni) . Ali, achei a referência de versos do M. Blecher, traduzidos pelo Klabin, na Revista Literária em Tradução n° 1. Recomendo a leitura pelo site abaixo:
http://www.notadotradutor.com/revista1.html
Entretanto, eu ainda queria saber do romance! Decidi, portanto, escrever ao tradutor - e ele acaba de me informar que a tal obra sairá em 2013, pela Cosac Naify! Excelente notícia: M. Blecher reviverá em português! Comemoremos!
Em tempo: Fernando Klabin tem outras traduções do romeno que valem a pena demais. É o caso de No cume do desespero, do Cioran, que saiu pela Hedra e já vou encomendar...

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Sempre a mesma neve

Estou quase terminando de ler Sempre a mesma neve e sempre o mesmo tio, da Herta Müller, uma das autoras que para mim tem qualidade incondicional: mergulhar num livro dela é sempre garantia de aprendizado ou embevecimento estético. Esta obra, por exemplo: poderia ser apenas um apanhado de textos vários, reflexões sobre literatura e política reunidas num volume justificado pelo fato de que a escritora ganhou o Nobel. Mas, no caso da Herta, uma publicação dificilmente seria "raspa do tacho" com o único propósito de atender ao mercado. O que temos em Sempre a mesma neve... são testemunhos que oscilam do ficcional para a realidade, sem jamais cair na planfetagem - apesar de em inúmeros momentos a autora acusar diretamente a ditadura socialista de Ceausescu, o universal humano está presente em cada linha, e mesmo um leitor distante daquela experiência pode compreendê-la e se comover. Além disso, o livro traz momentos de "bastidores" da escrita de Depressões e Tudo o que tenho trago comigo, outras obras da Herta. É maravilhoso ver as circunstâncias que motivaram essas histórias, e isso não como simples curiosidade; a autora fornece verdadeiras lições de literatura, ao mostrar suas técnicas com o uso das metáforas. Como se não bastasse, nos capítulos de Sempre a mesma neve... ainda aprendemos sobre as línguas alemã e romena, e temos notícia de autores longínquos para o público brasileiro. É o caso de M. Blecher, com o seu Da irrealidade imediata, lamentavelmente nunca traduzido para nós (chuif!).

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Tworki

Terminei ontem o poético e perturbador Tworki, do Marek Bienczyk, que traz o subtítulo de El manicomio, na edição espanhola que tenho comigo. É surpreendente que ainda se encontrem novas formas de falar de um mesmo acontecimento - no caso, a tragédia polonesa (uma de suas tantas) frente ao nazismo. Marek inova ao concentrar a história no amor entre dois jovens, trabalhadores do hospício Tworki: Jerzy e Sonia passeiam de maneira quase lúdica pela atmosfera pesada de guerra, até que esta finalmente os atinge, com um paroxismo que não larga a subjetividade, apesar de uma guerra ser sempre coletiva. A opção estética deste livro é a marca que o faz inesquecível. Ao contrário do que pensam (e proclamam) certos midiáticos que não conseguem ir além da frase óbvia e massificante, o estilo em literatura é tudo; se algo pode virar acessório, é o conteúdo, não a linguagem.