
Uma rosa explodiu em seu peito...
Um documentário que recentemente vi, sobre André Malraux, deixou em mim uma afirmação ressoando: a de que a arte é capaz de criar novos tempos. Tal ideia a princípio parece banal, utópica ou otimista, talvez. Mas o sentido não era o de um novo tempo no aspecto promissor das ideologias felizes. Também não dizia respeito à eternidade que os artistas buscam: aquele impulso básico de sobreviver para além de si, que uns direcionam ao projeto de deixar filhos, propagando o código genético, e outros formulam de maneira mais simbólica, lançando ao mundo obras de pretensão estética.
Não, a proposta de Malraux não trazia esses chavões que o homem desde sempre criou, para tentar inutilmente vencer a roda-viva dos anos. Sua afirmação era a de que a arte cria tempos paralelos, ou seja, diversas possibilidades para se viver, fora da rotina, da realidade massificante ou da época comum de todas as pessoas. Assim, o artista (e o espectador também), diante da obra, experimentaria uma vivência extra, composta de emoções e conhecimentos intraduzíveis dentro do tempo usual. A arte seria capaz de conduzir a aprendizados e intuições que de outra maneira nunca existiriam.
Quem jamais se sentiu mergulhado numa dimensão diferente ao contemplar, por exemplo, uma pintura de um gênio como Van Gogh ou Monet, não saberá do que estou falando. Mas, para os que têm a disposição de perder-se dentro de um museu, a afirmativa de Malraux traz uma síntese perfeita. É justamente um outro tempo que se inaugura, pela arte. Senão, como explicar que aquele momento dedicado à observação dos detalhes de um Rodin tenha parecido dois ou cinco minutos, embora o relógio assinale meia hora? A arte exige paciência, e não se pode ser artista ou público movido pela pressa – como um gourmet não pode apreciar um bom prato se tem de comer num fast food, a toque de caixa.
Essas horas que parecem perdidas, na lentidão de um passeio pelas salas de museus, ou na absorção de um espetáculo, ou na calma leitura de um poema, são o verdadeiro tempo ganho, que a arte instaura. O único tempo – eu ousaria dizer – proveitoso, de fato. É a nossa ocasião para exercitar a sensibilidade, ultrapassando o raciocínio: podemos sair da individualidade e provar percepções alheias, visões singulares.
Talvez algum leitor ache que minhas impressões neste campo alcançam um teor excessivamente metafísico ou espiritual. Pois é assim mesmo que percebo a arte: em qualquer de suas manifestações, ela parece divina, por seu duplo gesto de criar. Para além de sua existência empírica, carrega um potencial etéreo – e por esta saída abre um tempo próprio, que supera a superfície das coisas vistas e inventa infinitos mistérios.
(crônica publicada em 25/08/2010, na coluna Opinião, do jornal O Povo. Disponível também em http://opovo.uol.com.br/app/opovo/opiniao/2010/08/25/int_opiniao,2034489/a-arte-e-o-tempo.shtml)
No hotel em Florença, em cima da cômoda, achei o folder da exposição sobre os “pintores metafísicos”. Não tive dúvidas quanto a passar as primeiras horas na cidade seguindo um mapa até encontrar o Palazzo Strozzi. Tinha visto um Magritte poucos dias antes, em Veneza, na Fundação Peggy Guggenhein: uma belíssima conjunção de noite e dia, na paisagem que alguns classificam de surreal, mas para mim é algo mais específico e intraduzível.
No Palazzo Strozzi também havia quadros de Max Ernst e De Chirico, montando o fio temático da mostra – e eu pensava nessa dimensão dita transcendental, onírica ou ilusória, um mundo à parte, criado pelo imaginar. Claro que tudo estimulava o pensamento, e era fácil, por exemplo, compor o ateliê dos artistas no momento em que as obras foram feitas. Uma confusão de cores no feitio de espasmos: ao menos, seria assim para Max Ernst, dadaísta e irreverente. Pensei nos seus gestos ágeis traçando a estranha criatura, semelhante a um pássaro, que dizem ser seu alter-ego na pintura.
Imaginei De Chirico para além dos manequins e das paisagens solitárias: um homem de rosto expressivo, que um dia recebeu certa mulher misteriosa para fazer-lhe um retrato. A mulher era brasileira, escritora, e estava morando na Itália. Posou para De Chirico durante três tardes silenciosas, e numa delas ouviu-se na rua o jornaleiro gritando: a guerra tinha acabado! Mas De Chirico continuou com os pincéis, e a mulher, que se chamava Clarice Lispector, talvez não tenha estranhado.
O meu preferido, entretanto, sempre foi Magritte. Fantasio sua voz em tom terno, com curtas frases, muitas irônicas; uma piscadela de olhos esperta, que seria impossível para o estrondoso Dalí. Claro que me encantam as geniais criações do surrealista espanhol – mas guardo uma especial comoção para este delicado belga, René. Seus sonhos são mais poéticos e delicados, e com ele sinto ter maior “empatia de delírios” em arte, se assim se pode dizer.
Aconteceu desde o primeiro momento, quando conheci seus quadros em reproduções de livros, na época de minha licenciatura em francês. A chuva de homens com chapéu-coco, as aves em silhueta, o traço perfeito para criar rupturas de sentido... Aquela pintura me fulminou de um jeito tão intenso que habitou meus olhos para sempre. Eu a reencontrei em Veneza e Florença com a emoção de folhear retratos de um antigo amor: mãos frias, respiração curta... Algo que ainda hoje permanece, quando deparo, em certas manhãs, com esse céu de um azul esticado e uniforme: um céu de Magritte, que Fortaleza – quando se despe de nuvens – sabe muito bem ter.
Tércia Montenegro (crônica publicada na coluna Opinião, do jornal O Povo em 11/08/2010. Pode ser lida também em http://opovo.uol.com.br/opiniao/opiniao/index.shtml)
Quando viajo, entro num território longínquo, como se de repente pudesse cair dentro de uma pintura – ou tapeçaria, como o quis, num conto, a incrível Lygia. Acostumada a ver fotografias ou filmes da cidade para onde vou, por um minuto não acredito que aquele espaço é real, para além do cenográfico ou artístico. Havia alguma coisa em mim dizendo que era mentira, ilusão de câmeras, truque hollywoodiano. Não era possível que aquele lago fosse tão belo, ou aquela montanha... Não era sequer viável que as comidas tivessem cheiro e, de fato, sabor – e não parece absurdo entrar numa igreja onde as missas acontecem há sete séculos?
Preciso ver para crer. Por passar tanto tempo mergulhada em páginas, dentro de palavras e histórias, tenho tendência a pensar que tudo é fábula. Assim, vejo o túmulo de reis e poetas antigos como se achasse o atestado de que eles existiram – e isso é tão surpreendente como se me revelassem que os personagens de um relato viveram em carne e osso. Meu assombro com obras de arte é parecido: por mais que suas reproduções sejam divulgadas, tenho de comprovar o exato matiz daquela pintura, ou perceber a textura daquilo que um dia o escultor chamou de bronze ou pedra.
Mas não basta a visão. Comigo, viajar convoca todos os sentidos: estou dentro de uma paisagem insólita e não posso passear por ela como se fosse uma nativa num dia de lazer. Tenho de me assombrar, experimentar o êxtase ou o repúdio, potencializando as novidades que encontro, ou me comovendo com as semelhanças em relação ao meu lugar. Mas nunca alcançarei a postura blasé do desprezo, a indiferença dos que já esperavam por tal coisa, ou estavam treinados e prevenidos contra determinado aspecto.
Sem susto, não vale a pena viajar. Toda viagem é motivada por esse vício das descobertas e espantos: quem sai de seu canto procura o instável. Por isso, há algo de errado nos que planejam milimetricamente um roteiro, saindo e entrando de cartões-postais com a intenção de conferir cada localização e tirar umas fotos de prova para depois mostrar à família, sob a rubrica do “eu estive lá”. Imagino que, se essas pessoas posassem diante de réplicas feitas em estúdio, não haveria diferença em suas emoções.
A descoberta de cada elemento de um local, por ínfimo que seja, pode ter grande importância. Conversar com as pessoas sem a fluência da própria língua, entrar nos prédios públicos alheios, comer em restaurantes incomuns ou ouvir novos ritmos... tudo constrói, para o viajante, a impressão personalíssima da viagem que fez. É dentro desse conjunto inédito que gosto de me aventurar de perto – e, quando a natureza é espantosamente bela, não resisto ao impulso de tocá-la: grãos de areia, grama, sopro do vento, água. Digam que isso é o mesmo em qualquer parte do mundo; posso até concordar. Mas quando viajo, é como se reconhecesse um rosto absurdamente perfeito, e toco essas coisas para aprender a linha de seus traços, para me assegurar de que não estou dentro das palavras e da ficção. Estou na própria paisagem, e isso é real.
Tércia Montenegro (texto publicado na coluna Opinião, do jornal O Povo, em 28/07/2010. Disponível em http://opovo.uol.com.br/opiniao/opiniao/index.shtml)

A situação limitada de uma palestra ou conferência parece ser favorável a certos desentendimentos ou confusões especialmente toscas. Já passei por tantas circunstâncias bizarras que agora, ao receber um convite para um evento assim, vou preparada para o pior, embora sempre com a intenção de ver as “interferências” pelo lado do bom humor. Afinal, no mínimo terei mais uma constatação de que o pára-raios de loucos que carrego (invisível, sobre as costas) ainda está disposto e atuante.
A primeira vez é inesquecível, e felizmente aconteceu quando eu estava na plateia, e não no comando da palestra. Era um seminário sobre filologia, e todos os alunos de Letras estavam atentíssimos ao professor, quando de súbito ergueu-se do meio das cadeiras uma criatura colorida, esguia e oscilante, levantando um braço que serpenteava para pedir atenção. Quando o conferencista, muito educadamente, aceitou interromper o fluxo de seu raciocínio e deixou que o rapaz fizesse a pergunta, uma voz anasalada de afetação disparou: “Professor... eu gostaria de saber... o que o senhor acha da democracia holandesa?” Foi difícil para o professor não aderir aos risos que espocaram de todas as direções. Após um esforço traduzido em suspiro, ele disse ser aquele um assunto interessantíssimo, mas – tendo em vista que a palestra era sobre filologia – sua opinião ia ficar para outra hora. De imediato, decorei aquela técnica para driblar situações surreais.
Alguns episódios foram mais intensos porque eu estava na condição de protagonista, mas a todos sobrevivi – com boas risadas depois. Lembro o mais recente, com um francês beligerante que nunca tinha lido o escritor Imre Kértesz, Nobel de Literatura em 2002, cuja obra eu analisava. Até aí, nenhum problema: mas tudo se tornou dramático quando, espetado pela ousadia com que Imre falou da “felicidade nos campos de concentração”, o tal francês descontrolou-se, em cuspidelas de um agressivo sotaque. Ainda me escandaliza que a respeitabilidade possa ser esquecida – principalmente porque, sem ela, a mente se congela em “verdades”, elemento crucial das tiranias.
O francês me chocou, mas não chegou nem perto de abordagens mais criativas, como a do sujeito que, numa oficina de literatura, apegou-se a um discurso ferrenho contra a colonização que o Brasil sofreu – sem que isso tivesse o mínimo nexo com o assunto de que tratávamos. Aqui, o drible do filólogo foi retomado... como também naquela ocasião em que um membro da audiência, visivelmente doido, pediu a palavra para advertir contra a chegada de alienígenas... E haveria vários outros casos que eu citaria – mas este texto já anda “pelas tabelas”, e é preciso encerrá-lo. Resta a sabedoria de um colega de profissão, quando diz: a gente sofre, mas pelo menos se diverte!
Tércia Montenegro (texto publicado na coluna Opinião, do jornal O Povo, em 14/07/2010. Pode também ser acessado em http://opovo.uol.com.br/app/o-povo/opiniao/2010/07/14/int_opiniao,2019875/pelas-palestras.shtml)