LIVROS E BICHOS

Este é o blog da Tércia Montenegro, dedicado preferencialmente a livros e bichos - mas o internauta munido de paciência também encontrará outros assuntos.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Mistério



Versos do meu amigo Henrique Beltrão - um presente para o dia de hoje:

tudo é mistério:
em tudo é mister
tempo etéreo
pra (a)colher o que vier.

Portinari e Rivera

Há alguns dias fui ver, na Unifor, a exposição dos estudos para Guerra e Paz, do Portinari. Imediatamente, é claro, lembrei-me dos murais de Rivera (talvez, se me fosse possível escolher uma única imagem do mundo para eu levar para o além, eu escolhesse uma das pinturas que vi no México...). Mas a associação não foi feita apenas pela grandeza da proposta, que poderia me levar a pensar em qualquer outro muralista. Há algo mais íntimo, que liga estes dois artistas na pulsão incansável de sua obra: uma espécie de persistência ou mesmo fé na arte, como a única alternativa de ofício para a vida. No caso de Portinari, a escolha alcança laivos fatalistas, devido a sua morte causada pela intoxicação com as tintas. Mas não é preciso que se sacrifique a permanência nesta terra, em termos cronológicos, para se notar a verdadeira entrega do artista - ela está presente o tempo inteiro, e não com ares de sacrifício, como pode parecer a quem vê de fora. A entrega artística não é um esforço, uma obrigação; na verdade, talvez não seja sequer uma escolha, porque não existem opções concorrentes. A arte absorve com tamanha exclusividade, que a muito custo lembramos que estes homens foram também isso: homens, com seu universo doméstico, suas relações familiares, profissionais etc. Imagino os dois, Portinari e Rivera, impacientes com essa condição mesquinha de viver humanamente, enquanto, num mundo perfeito, poderiam ser unicamente criadores, o tempo inteiro.


domingo, 2 de dezembro de 2012

Carta de amor - da Bethânia

Agradeço à querida amiga Lívia por me apresentar esta canção-poema, celebração do amor próprio e da grandeza individual que a gente tem de recuperar. Eis a lição da mãe Bethânia (que em breve estará cantando aqui entre nós, em Fortaleza):

http://www.youtube.com/watch?v=KkbqGe_e9Jo

Carta de amor

Não mexe comigo que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só
Não mexe não
Eu tenho zumbi, besouro o chefe dos tupis
Sou tupinambá, tenho erês, caboclo boiadeiro
Mãos de cura, morubichabas, cocares, arco-íris
Zarabatanas, curares, flechas e altares.
A velocidade da luz no escuro da mata escura
O breu o silêncio a espera. Eu tenho Jesus,
Maria e José, todos os pajés em minha companhia
O menino Deus brinca e dorme nos meus sonhos
O poeta me contou
Não mexe comigo que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só
Não mexe não
Não misturo, não me dobro, a rainha do mar
Anda de mãos dadas comigo, me ensina o baile
Das ondas e canta, canta, canta pra mim, é do
Ouro de oxum que é feita a armadura que guarda
Meu corpo, garante meu sangue, minha garganta
O veneno do mal não acha passagem e em meu
Coração Maria acende sua luz, e me aponta o
Caminho.
Me sumo no vento, cavalgo no raio de Iansã,
Giro o mundo, viro, reviro, tô no recôncavo
Tô em face, vôo entre as estrelas, brinco de
Ser uma, traço o cruzeiro do sul, com a tocha
Da fogueira de João menino, rezo com as três
Marias, vou além, me recolho no esplendor das
Nebulosas, descanso nos vales, montanhas, durmo
Na forja de Ogum, mergulho no calor da lava
Dos vulcões, corpo vivo de Xangô
Não ando no breu nem ando na treva
Não ando no breu nem ando na treva
É por onde eu vou que o santo me leva
É por onde eu vou que o santo me leva
Medo não me alcança, no deserto me acho, faço
Cobra morder o rabo, escorpião vira pirilampo
Meus pés recebem bálsamos, unguento suave das
Mãos de Maria, irmã de Marta e Lázaro, no
Oásis de Bethânia.
Pensou que eu ando só, atente ao tempo num
Começa nem termina, é nunca é sempre, é tempo
De reparar na balança de nobre cobre que o rei
Equilibra, fulmina o injusto, deixa nua a justiça
Eu não provo do teu fel, eu não piso no teu chão
E pra onde você for não leva meu nome não
E pra onde você for não leva meu nome não
Onde vai, valente? você secô, seus olhos insones
Secaram, não vêm brotar a relva que cresce livre
E verde, longe da tua cegueira. Seus ouvidos se
Fecharam a qualquer música, qualquer som, nem o
Bem nem o mal, pensam em ti, ninguém te escolhe
Você pisa na terra mas não sente, apenas pisa,
Apenas vaga sobre o planeta, já nem ouve as
Teclas do teu piano, você está tão mirrado que
Nem o diabo te ambiciona, não tem alma, você é
O oco, do oco, do oco, do sem fim do mundo.
O que é teu já tá guardado
Não sou eu que vou lhe dar,
Não sou eu que vou lhe dar,
Não sou eu que vou lhe dar
Eu posso engolir você só pra cuspir depois,
Minha fome é matéria que você não alcança
Desde o leite do peito de minha mãe, até o sem
Fim dos versos, versos, versos, que brota do
Poeta em toda poesia sob a luz da lua que deita
Na palma da inspiração de Caymmi, se choro, quando
Choro e minha lágrima cai é pra regar o capim que
Alimenta a vida, chorando eu refaço as nascentes
Que você secou.
Se desejo, o meu desejo faz subir marés de sal e
Sortilégio, vivo de cara pra o vento na chuva e
Quero me molhar. O terço de Fátima e o cordão de
Gandhi cruzam o meu peito.
Sou como a haste fina que qualquer brisa verga
Mas, nenhuma espada corta.
Não mexe comigo,que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só
Não mexe comigo,

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Procura-se um amor que goste de gatos

Estas imagens foram gentileza do meu amigo Urik, que enviou o post sobre o fotógrafo Fubirai, que há cinco anos documenta a vida dos gatos na ilha japonesa de Fukuoka. Cada uma destas cenas vale um sorriso.Clique nelas para ampliar.

domingo, 25 de novembro de 2012

Mel com Os Espantos

O amigo Plínio Bortolotti foi o responsável direto para que meu mais recente livro surgisse, pois foi ele quem me convidou para publicar, quinzenalmente, crônicas no jornal O Povo - cinquenta das quais acabaram reunidas neste volume, Os Espantos. Agora percebam como sua gatinha, Mel, também foi responsável pelo projeto gráfico da capa...

sábado, 24 de novembro de 2012

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

IX Encontro Interdisciplinar de Estudos Literários

Amigos,

Na próxima segunda-feira, dia 26, começará o IX Encontro Interdisciplinar de Estudos Literários, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da UFC. A programação completa pode ser conferida pelo endereço http://ixinterdisciplinar.blogspot.com.br/p/programacao.html
Às 11h, farei uma conferência sobre medo e prazer na fruição da obra artística. Logo em seguida, haverá o lançamento do meu livro de crônicas Os Espantos. Quem perdeu o evento da Bienal pode aproveitar a ocasião para adquirir a obra por lá.

Bonecos do mundo

No fim de semana passado, tive a chance de conferir um pouco do Festival Sesi Bonecos do Mundo - e fiquei completamente maravilhada! Tenho certeza de que a programação trouxe realmente os melhores artistas (alguns, verdadeiros gênios) em suas técnicas variadas, manipulando bonecos com fios ou outros dispositivos, criando títeres com partes do corpo ou através de sombras - e tudo isso, grátis e aberto ao público, como deve acontecer! O Centro Dragão do Mar virou uma festa de gente hipnotizada pelas belezas desse tipo de teatro, e eu devo confessar que esta foi uma das raras ocasiões em que me orgulhei de viver em Fortaleza, para desfrutar desses espetáculos! Não esquecerei os mágicos "mestres das sombras" do grupo japonês Kakashiza. Também vou levar comigo as imagens de irreverência dos bonecos de Viktor Antonov e Phillip Huber (que chegam a fazer metateatro com títeres, sem limites para o experimentalismo e a inventividade!). Ainda lembro Hugo e Ines, com seus Cuentos pequeños, de personagens nascidos dos pés, dos joelhos, das mãos...E tive ótimos momentos com as criações do Gente Falante, em seu Circo Minimal e no delicado Caixa de música. Havia outros espetáculos, que infelizmente perdi, por causa dos horários - mas só a amostra citada já serve de exemplo do valor desse evento para a nossa cidade. Que venham novas edições do Festival Sesi!



quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Do farelo ao pão - Accademia della Crusca e Padaria Espiritual

Embora os meus impulsos autodidatas não sejam lá muito disciplinados, tento dar seguimento aos estudos de italiano, mesmo após ter concluído a Casa de Cultura (bem sei que se perde fluência rapidinho - olhaí o meu francês para provar isso...). Assim, ontem eu estava mergulhada numa História da Literatura Italiana e, nessa viagem pelo medievo, li a respeito da Accademia della Crusca, que foi criada em Florença, no século XVI, e ainda hoje subsiste como uma importante instituição linguística. Quem quiser saber mais a respeito pode consultar o site oficial, que é riquíssimo de informações sobre a língua italiana: http://www.accademiadellacrusca.it/it/frontpage
Mas o que eu achei interessante nesse estudo foi descobrir que a tal Accademia della Crusca ganhou esse nome porque os seus primeiros representantes não queriam ser pomposos acadêmicos - de forma que escolheram a ideia do farelo (crusca) como indicativo de que se ocupariam de miudezas, dentro de um espírito irreverente, inclusive. Ora, isso imediatamente me lembrou da proposta da nossa Padaria Espiritual, movimento tão cearense e criativo! É de se indagar se existe um vínculo proposital entre os acadêmicos "farinheiros" da Itália de 1500 e os nossos "padeiros". Óbvio que, se houver uma influência direta, isso em nada diminui a importância da Padaria Espiritual (que, aliás, já começa com o mérito de ter um nome bem mais cativante do que Academia do Farelo, hehehe). Provar essa ligação seria muito mais uma curiosidade do que um golpe para ferir algum princípio de originalidade (se é que isso existe, de fato). Alguém pode argumentar, entretanto, que a ideia da arte como "alimento para a alma", seja na forma simbólica de pão, farelo ou migalhas, existe na humanidade desde sempre e não há como estabelecer quem primeiro formulou essa metáfora. Bem, essa opção me parece um tanto comodista, embora não de todo equivocada. Eu ainda acredito que uma pesquisa pode trazer mais material de discussão. Este é um caso de consulta para o professor Sânzio e para especialistas em italiano! 

O predestinado


O PREDESTINADO

Alguns livros, como certas pessoas, já nascem predestinados. Quando a Fundação Demócrito Rocha me convidou para reunir cinquenta crônicas dessas que venho divulgando há dois anos, aqui no espaço Opinião, pensei logo no título Os Espantos. A própria seleção dos textos me conduziu a esse nome, pois a maioria das crônicas trata de vidas insólitas, obras de arte (que quase sempre são espantosas) e situações estranhas ou engraçadas. Mal sabia eu que o livro, assim batizado, continuaria me espantando, embora, como sua autora, eu já devesse ter me acostumado a todas as suas características e possibilidades. O susto, porém, continuou e talvez ainda persista por muito tempo, conforme fico sabendo do destino que essa obra vai ganhando.
            A peripécia começou no caminhão que transportava os exemplares para o lançamento em Fortaleza, a ocorrer durante a Bienal Internacional do Livro do Ceará. Em certa altura da viagem, em Minas Gerais, o motorista perdeu o controle e o veículo tombou, largando a carga pela estrada. Rapidamente, apareceram inúmeras pessoas para se apoderar dos pacotes – e essa cena dos salteadores correndo com caixas literárias é uma das coisas que eu jamais conseguiria, sozinha, imaginar. Mas a vida supera a ficção, e o motorista, mesmo com um dos pulsos quebrado, teve o espírito camoniano de se agarrar com um dos pacotes, para salvá-lo. Foi essa caixa, sobrevivente do saque, que garantiu a quantidade de exemplares para que o meu lançamento acontecesse, na quarta-feira passada.
            Houve rumores de que o acidente teria sido provocado por uma barricada preparada por universitários, que, revoltados com os altos preços dos livros que têm de comprar, decidiram saquear alguns. Ao abrirem os pacotes e depararem com o título Os Espantos, imagino o que não lhes passou pela cabeça...
            Por outro lado, ouvi versões garantindo que o assalto foi planejado por uma única pessoa, um empresário que pretendia montar certa livraria monotemática em Ubá. Os livros, após o roubo, seguiram transportados em lombo de burrinho pedrês até um depósito clandestino, e em breve devem ser levados para a tal livraria. Enquanto isso, alguns exemplares já começaram a circular informalmente e, de pessoa em pessoa, vão ganhando mundo, viajando. Um dos livros até foi visto em Congonhas, na mão do profeta Habacuque, de Aleijadinho.
            A editora providenciou uma nova impressão para substituir as unidades perdidas – mas, para mim, os exemplares salvos pelo motorista são especiais. Com pequenos amassados e pingos de sangue, eles trazem o sinal da esperança. Afinal, se a posse de livros ainda provoca luta, nem tudo está perdido para a literatura!

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo. Disponível também no respectivo site)







terça-feira, 13 de novembro de 2012

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

terça-feira, 6 de novembro de 2012

O desnorteio


O DESNORTEIO

Talvez não haja grande diferença entre a sensação trazida por uma catástrofe natural e outra, criada voluntariamente por alguém. Um furacão furioso também pode se instalar nas fissuras humanas: tempestades nascem dentro de casas, vendavais que arrebatam ânimos, sopram palavras, cavam abismos. De repente, você está num território que se transformou: o terreno sólido virou desastre, cheio de ruínas. Os objetos parecem cacos, resquícios que se penduram nas paredes ou ficam esfriando nas gavetas, como fotografias que não se quer mais ver. Cenas e rostos reverberam, criando fantasmas – ou serão vapores de lembrança? E, antes disso, houve presságios, brigas inexplicáveis de gatos mansos, houve olhares furtivos e ausentes, a falta de gestos que primeiro não eram notados porque já existiam, espontâneos. Assim a natureza de repente muda: o céu tinha uma cor esquisita, disseram, antes do tsunami. Ainda era um céu, acima de nossas cabeças; nada extremo aconteceu como anúncio; não foi preciso que se revirasse a geografia nem que as nuvens escrevessem alfabetos pelo ar. Tudo sutilíssimo; apenas uma cor diferente, um tipo de vento que jamais arrepiou daquela maneira. E, minutos depois, a onda gigante arrastando sem trégua, tão violenta e poderosa quanto uma mensagem definitiva.
E por falar em mensagem, eu procuro um livro-bússola, impossível. O poeta Vinícius de Moraes não deixou o contraponto, não escreveu Para perder um grande amor. Mário Faustino tampouco descobriu a solução em oráculos, a verdadeira “conjunção de agouros” que tanto pode atormentar, no poema “O homem e sua hora”. Fernando Pessoa – oh, meu Deus! – nem ele, com todos os seus geniais desdobramentos, é suficiente para lidar com desassossegos. Tem razão meu amigo Rafael Martins quando, numa de suas peças teatrais, diz que não há um procedimento para a vida. Como não há maneira de se salvar de calamidades – acrescento. Alguns elencam prevenções, treinamentos que dão uma (falsa) segurança; há os que constroem trincheiras, abrigos subterrâneos, pintam rotas de fuga e aprendem a se manter deitados em caso de relâmpago ou terremoto. Mas nada disso garante. A natureza, quando chega a seu limite, é implacável, embora aja somente como justiceira: sua violência é sempre uma resposta.
Quando se cria intencionalmente um desnorteio, a princípio tudo pode parecer diferente; pelo menos, a causa do desastre foi egoísta: alguém escolheu, hesitou no seu milésimo de ponderação – e depois decidiu. A sua decisão estourou uma represa, fez caírem aviões, despedaçou estilhaços de bomba, deixou um cogumelo de fumaça parada sobre o mesmo local, durante muito, muito tempo. Estava lá um homem que apertou o gatilho, o detonador – mas ele não importa. A única coisa que permanece é o choque, o inesperado desequilíbrio diante da catástrofe. Pelo mundo inteiro, creio que a sensação deve ser idêntica.

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo)


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Leia com moderação

Amigos,

Logo, logo chegará às livrarias a antologia 50 versões de amor e prazer, organizada por Rinaldo de Fernandes e publicada pela Geração Editorial. São contos eróticos escritos por 13 autoras brasileiras (eu e Ana Miranda somos as "representantes cearenses"). No início, para mim foi complicado superar a timidez diante de certos temas e palavras, para me dedicar às quatro histórias picantes que aqui estão publicadas. Durante um tempo, passei por hesitações, até me lembrar: arte é território de liberdade e sempre existe uma maneira interessante de tratar qualquer assunto, mesmo aqueles que à primeira vista inspiram tabu.
O resultado dessa experiência foi libertador; creio que ainda farei várias outras narrativas na mesma linha, nem que seja por um simples exercício literário...

sábado, 27 de outubro de 2012

Semiótica para a vida

Trecho de Raúl Dorra em posfácio à edição de Da imperfeição, de Greimas:
"(...) o projeto da semiótica é - deveria ser - nada menos do que mudar a vida, ensinar aos homens, se não uma grande sabedoria, pelo menos um conjunto de pequenas astúcias - pequenas escapatórias que permitissem à beleza, inteira ou em migalhas, descer à humildade de cada dia. A semiótica, segundo Greimas, estaria envolvida nesta utopia: fazer da pequenez cotidiana uma batalha silenciosa pela beleza, recuperá-la no mundo. (...) A arte, então, nos é necessária a cada minuto, e a semiótica também: aquela porque é o que pode formar a beleza diante dos nossos olhos maltratados pela feiúra, e esta porque é a que pode 'ressemantizar a vida', entregando-nos deste modo as chaves da beleza." (pp.122-3)