LIVROS E BICHOS
domingo, 4 de abril de 2010
Entrevista
http://opovo.uol.com.br/opovo/vidaearte/968994.html
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Poema para um gato
Dois riscos de pupila -
Se fixam nos meus,
Tão menores.
Miram o mundo em transições
De luz e fundura, no ócio
Dos que têm a vida ganha
Em corpo de pluma.
Sob um focinho róseo, a boca
Se desenha em linhas oblíquas,
Num bocejo de serpente.
As orelhas se torcem ao menor ruído,
Baixam-se para o ataque
E relaxam em triângulos
No tempo longo de de descanso.
As patas, com a suave textura
De borracha, e as unhas
Violentas de ranhuras, escondem
A dupla face de um caráter
Tranquilo mas astuto.
O silêncio da tua presença
E teu andar impressentido,
No aspecto de escultura,
Concentram a beleza da poesia
Em felina ternura.
Tércia Montenegro
Publicado no jornal Volante (Veículo Original Litero Alternativo Nascido Totalmente Emancipado). Periódico Bimestral. ano 1 - n.2, documental - Fortaleza,CE, março/abril 2009.
quarta-feira, 31 de março de 2010
À beira do lar
Todas as janelas de minha casa têm cortina de algodão cru, com tramas de flores e quadrados. Gosto de pensar que ainda guardam o movimento das mãos que trançaram suas figuras labirínticas – porque foram mãos, e não mecanismos de uma fábrica. Vê-se de longe o tempo que levou cada peça: semanas, até meses, num ofício de criação rítmica. Quando o vento sopra cada cortina, é como se resgatasse a vida que lhe imprimiram aquelas mãos.
Em determinadas horas do dia, há sempre um gato que descansa na janela da frente, por onde se vê meu jardim de verde-sombra, com árvores que são um alívio a quem se aventura sob este céu de manhãs flamejantes. Por mais iluminado que esteja o tempo, entretanto, o corredor permanece úmido. Um corredor longo e silencioso, arejado pelo vitral antigo, posto como um olho neste pé-direito alto. O piso vermelho conduz à sala, toda composta de móveis rústicos – mesa, cristaleira, cadeira de balanço. O destaque talvez seja um sofá xadrez, pequeno fetiche do qual não me desfaço.
Há também, confesso, o quarto principal, com o colchão d’água. Serve para lembrar que somos feitos muito mais de líquido e, portanto, somos maleáveis. Além disso, nas noites em que o amado não está, o colchão permite que eu ainda repouse na sensação de verdes mares...
A sala de leitura e artes é onde se encontra o maior número de livros, quadros e esculturas, também espalhadas pelo resto da casa. O computador é inevitável, mas acabou fazendo um par alegre com a parede coberta de pastilhas: o desenho do pavão misterioso me fita, com seu perfil multicolor.
Da cozinha, ressalto o constante cheiro de café e caju. Ouve-se um ruído de rolha liberta em algumas noites, as mesmas em que se pode escutar uma conversa animada no puxado lateral da casa, um espaço que tradicionalmente se chama oitão. Pois é neste oitão que meus amigos ficam, em redes ou cadeiras, aproveitando o sossego, que é tão parecido com a paz.
Eu também fecho os olhos nos instantes de silêncio – dou mais um embalo na rede e esqueço que a realidade é outra, no apartamento com sua vizinhança anônima e urbana. Nessa breve sensação de alívio, penso que estou em minha casa imaginada, com brisa de mar e jeito de sertão. Novamente, acabo de pendurar as cortinas e agora observo sua dança, ao vento.
Tércia Montenegro
(texto publicado em 2008, na revista da Casa Cor)
segunda-feira, 29 de março de 2010
Para limpar a vista
Estas fotos de bichanos anônimos me foram dadas por um ex-aluno, também anônimo (ai de mim, tão péssima de memória). Faz muitos anos que recebi esse presente, mas até hoje ele me faz bem: volta e meia, abrilhanta minha tela de computador e me lembra que a fotografia é, sim, uma das mais preciosas artes.
Em tempo: certa pesquisa revela que observar a foto do ser amado por um minuto, mais ou menos, tem a capacidade de reduzir o nível de adrelina e outras coisas tóxicas do sangue. Por isso é que eu sempre tenho à mão - principalmente nos congestionamentos de trânsito - fotos e fotos de gatos, de paisagens e, claro, fotos dos meus amigos e do meu encantado(r) tzarievitch...
sábado, 27 de março de 2010
Trechos de Ortega y Gasset
“As nossas convicções mais arraigadas, mais indubitáveis, são as mais suspeitas. Constituem o nosso limite, os nossos confins, a nossa prisão. Pouca coisa será a vida se nela não arfar um esforço formidável de alargamento das suas fronteiras. Vivemos na proporção em que ansiamos por viver mais.” (p.54)
“O poeta começa onde o homem acaba. O destino deste é viver o seu itinerário humano; a missão daquele é inventar o que não existe. (...) O poeta aumenta o mundo. (...) Autor vem de auctor, aquele que aumenta.” (p.58)
“A metáfora é provavelmente a potência mais fértil que o homem possui. A sua eficiência chega a raiar os confins da taumaturgia e parece uma ferramenta de criação que Deus deixou esquecida dentro de uma das suas criaturas na ocasião em que a formou, como o cirurgião distraído deixa um instrumento no ventre do operado. (...) É verdadeiramente estranha a existência no homem desta atividade mental que consiste em substituir uma coisa por outra, não tanto no esforço de chegar à segunda como no intento de se esquivar à primeira. A metáfora escamoteia um objeto mascarando-o por meio de outro, e não teria sentido se não víssemos nela um instinto que induz o homem a evitar as realidades.” (pp.59-60)
“A relação da nossa mente com as coisas consiste em pensá-las, em formar ideias delas. Em rigor, não possuímos do real senão as ideias que dele tenhamos conseguido formar. Estas são como o belvedere de onde vemos o mundo.” (p.62)
ORTEGA Y GASSET, José. A desumanização da arte e outros ensaios de estética. Coimbra: Almedina, 2003.
segunda-feira, 22 de março de 2010
A praga continua
Uma pena: parece que a praga continua a atingir os filmes recentes. Vou me conformar e me aquietar por um tempo. Voltemos aos livros, que são mais garantidos e dão mais liberdade de movimento a quem os aprecia. Acabei de ler o ótimo Um brasileiro em Berlim, do Ubaldo, para relaxar.
sábado, 20 de março de 2010
Decepções cênicas
Não consigo me interessar por aquilo que já conheço. A arte, ou carrega surpresas, ou não serve para nada.
sexta-feira, 19 de março de 2010
As Relíquias
No meu último dia em Jerusalém, um comerciante na Via Dolorosa ofereceu-me a réplica de uma coroa de espinhos. Durante a viagem, eu já havia recusado miniaturas da torá, turíbulos gregos, cruzes, lapinhas e candelabros. Toquei a coroa: tinha um diâmetro pequeno demais. Pensando que eu analisasse a qualidade do produto, o vendedor entusiasmou-se, num inglês sôfrego:
– É uma réplica autêntica! Pode levar!
Eu não ia discutir a autenticidade de nada daquilo, muito menos de uma réplica. Além do mais, meu ônibus estava saindo – mas o comerciante ainda veio me oferecer solidéus em muitos modelos, de cetim, algodão, veludo...
– Não tenho familiares judeus – disse, sem muita convicção, porque no Brasil a gente nunca tem esse tipo de certeza. Escapei rumo ao ônibus, e por um instante meu guia e o vendedor fizeram gestos simétricos, cada qual em seu extremo. Um gesto de chamado, busca; tudo era comércio da mesma forma. Eu não esquecia o que a professora de Honduras, companheira de excursão me dissera, logo no princípio do passeio:
– A segunda maior atividade de Israel é o turismo. Este é um país riquíssimo, você percebe.
Eu ia percebendo. Fosse no kibbutz onde fiquei hospedada, em luxuosas instalações que nem de perto davam a sensação de que eu dormia numa colônia agrícola, fosse no próprio aeroporto de Ben Gourion. O nome desta edificação tão nova quanto imponente confirma o orgulho que certos judeus têm da memória de seu bélico primeiro-ministro. Sim, porque a maior atividade de Israel é a indústria de armas. Por aqui, adolescentes em serviço militar desfilam com seus rifles, e podem levar as armas para casa. Nas praças e nos mercados, garotas de rabo-de-cavalo fumam, enquanto olham as pessoas. Eu quase consigo esquecer que elas estão de botas, uniforme e rifle.
O guia continua a indicar as relíquias de sua terra, o solo sagrado. Comenta a guerra contra os sírios, a disputa de territórios, e leva o grupo turístico a ver um terreno cercado e inútil, polvilhado de minas. Quando aponta uma casa semidestruída por um míssil, muitos passageiros se acumulam para fotos, na janela do ônibus. Até a professora de Honduras está lá, inclinada, em busca de um ângulo rápido. Não me mexo no assento. Penso nas paisagens bíblicas, devastadas, e nas indústrias de lapidação de diamante, as maiores do mundo. Tento imaginar que os beduínos talvez pudessem visitar os Jardins de Bahai, ou pescar no rio Jordão. Quem sabe as mulheres muçulmanas despissem o hijab – lenço islâmico – para molhar os cabelos no Mar Morto...
Quero me convencer de que meu exercício de imaginação, mais que forçado, é impossível. Mas antes, retiro do bolso o chaveirinho de camelo que afinal comprei
Tércia Montenegro
(Texto publicado no jornal O Povo, em 2008)
domingo, 14 de março de 2010
Música!
Os hábitos, porém, são feitos para serem quebrados de vez em quando. De maneira que, nos últimos tempos, tenho me forçado a integrar mais música em meu cotidiano. Não do modo como integro a leitura, a fotografia ou a pintura, claro (a música sempre ficará em segundo plano). Mas faço um esforço no sentido de recordar o quanto de belo existe nessa arte.
Como impulso puxa impulso, mal formulei meu desejo interior, já as energias foram postas em ação. Uma reunião no grupo de pesquisa da fac foi o ponto de partida: a musicóloga Érica lançou o fascínio do modo mixolídio numa canção do Chico César: Beradeiro. O erudito, pelo que remonta aos clássicos criadores de tudo, e o popular, pelo revivido sempre em nosso interior nordestino (e por falar nisso, ai que saudades do Cariri!!).
A parte dois do impulso veio com o convite, via plataforma Sócrates, para ver O homem que engarrafava nuvens, um filme que eu queria já faz tempo conferir. Gostei. E fiquei lembrando as magias de Humberto e Luiz.
Não há jeito: minha raiz cearense pulsa, apesar de eu ter nascido em capital. É um desgosto que tenho, não ter meu lado B, meu chão escondido, com casinha de parentes a visitar nas férias, num tempo de passeio a pé, homem e bicho lado a lado, na casa e no trabalho. Sinto falta desse ritmo-baião, que logo me transporta para cenas rurais, visual que sou. E sinto falta dos ruídos da mata, dos besouros, do galo de manhãzinha, e do fru-fru na areia que faz um cão, ao se espojar na terra. Essas, para mim, são melodias de afeto, algo que desde pequena eu quis cultivar e nunca pude. O velho sonho de morar numa fazenda cheia de bichos e livros - talvez um dia, quem sabe, eu ainda o realize...
quinta-feira, 11 de março de 2010
Convite para o Verde - Olhar de Israel
Convido a todos para a minha exposição fotográfica "Olhar de Israel", que estará em cartaz de 12 a 31 de março no Restaurante Verde Lima (Rua Dom Sebastião Leme, 837, no Bairro de Fátima). Lá, as fotografias poderão ser adquiridas por quem quiser, e alguns dos meus livros também estarão à venda! Apareçam para almoçar no Verde e confiram as imagens!
terça-feira, 9 de março de 2010
sábado, 6 de março de 2010
O compromisso
"O divã branco no céu, a farmacêutica no aquário, as favas de ervilhas nas tílias, as sandálias de Paul como luvas do sapateiro moço, a Maulberstrasse com acácias - depois da morte do velho sapateiro nada mais combinava direito. O vento não espalhara pela cidade a semente louca das dálias de Vera, mas semeara o engano entre cadarços e pasta de dentes, cigarros e pregos, lenço e chapéu. Agora recomenda-se cegueira neste anoitecer rubro da cidade, há olhos de vidro para todo mundo. Mas a tampa do caixão reboa especialmente para aqueles que querem ser felizes dançando de tédio da vida. Sim, gostaríamos de usar coroas e ficar fartos do mundo. Mas não será o contrário, o mundo fica farto de nós, e não nós dele." (p.115)
"Na cidade eu tinha de me cuidar para não escapar de mim como a respiração no inverno, ou não me engolir ao bocejar. Não podia abrir tanto a boca quanto estava frio em meu interior. Comecei a me sentir carregada por algo mais leve que eu, e a gostar disso, quanto mais embotada estava interiormente." (p.123)
