LIVROS E BICHOS

Este é o blog da Tércia Montenegro, dedicado preferencialmente a livros e bichos - mas o internauta munido de paciência também encontrará outros assuntos.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Javier, Javier

Estou acabando de ler Os enamoramentos, do Javier Marías. Fiz uma pausa nos russos porque não resisti a esse romance do autor que, para mim, é o que há de melhor na prosa em língua espanhola da atualidade. Entretanto, devo dizer que o livro me decepcionou um pouco. Estava acostumada à qualidade de obras como Quando fui mortal, Coração tão branco e Amanhã, na batalha, pensa em mim - histórias que sempre me faziam sair de sua experiência com aquele embevecimento de admiração pelo arranjo, pelas soluções narrativas e, sobretudo, pela capacidade reflexiva. Este último ponto talvez seja o único que permanece íntegro n'Os enamoramentos, e afinal é o que nos faz reconhecer o estilo de Javier Marías, que tem esse hábito de paralisar a ação para fazer incursões digressivas interessantes - no que lembra, às vezes, José Saramago e Villa-Matas (embora este tenha certa desvantagem estética). No restante, porém, o romance não me convence. Tive a sensação de que o início, quando a protagonista se apresenta como funcionária de uma editora e passa a descrever os autores como caricaturas maníacas, nada mais é do que uma espécie de vingança ou recado do escritor para os seus pares. Não que eles não mereçam a crítica, mas achei que ela entrou de maneira forçada, no livro. Além disso, existe o grave problema de que as vozes da narrativa são todas iguais; personagens os mais diversos caem em reflexões idênticas, usando as mesmas palavras, inclusive. Essa "preguiça" de especificar os temperamentos das figuras literárias acaba explicitando demais o próprio autor, e talvez não por acaso um dos personagens se chame Javier, e a protagonista, Maria. Conhecendo os outros livros deste espanhol, sei que a presença autobiográfica faz parte de seus enredos (e isso, aliás, nunca foi um defeito). Mas a monofonia desse romance não me parece uma estratégia e, sim, uma carência.
Ainda tenho por ler, em minhas estantes, a trilogia Teu rosto amanhã. Espero que ela me resgate um antigo Javier Marías, mais cuidadoso com suas estruturas literárias.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Crônica do Rio


CRÔNICA DO RIO

         No caminho de volta para Fortaleza, soube que não tinha aproveitado um décimo do que a cidade podia oferecer. O tempo escasso cortou minhas programações impiedosamente, e assim eu deixei o Corcovado, a Academia Brasileira de Letras, o Theatro Nacional, a Quinta da Boa Vista e o Zoológico para outra vez. Passeios pela Lapa, por Santa Teresa, Leblon ou Laranjeiras também entraram na lista futura – mas o pior foi saber que, por um medonho erro de comunicação, não vi o amigo Silvestre, chegado ao Rio de última hora, para um encontro com Oscar Niemeyer! Amaldiçoei todas as companhias telefônicas do país e pus-me a refletir sobre o que, afinal, eu tinha feito nessa primeira estada no Rio de Janeiro.
Já no voo de ida começou a aventura, quando uma comissária de bordo sofreu assustadoras crises de labirintite ao servir as refeições. Mais tarde, eu tentaria compensar aquele sanduíche com um jantar no Lamas, point intelectual desde o século XIX. Na categoria de bares históricos, no dia seguinte conferi o Amarelinho, em frente à Biblioteca Nacional, e reparei que os seus garçons pareciam todos sofrer de um certo grau de icterícia. Mas nada se compara ao restaurante A Polonesa (experimente gołąbki ao som de Chopin e diante de uma foto do Castelo de Wawel) ou à Confeitaria Colombo (onde devemos saborear profiteroles – a sobremesa favorita de Rui Barbosa).
         Consegui visitar a Biblioteca e o Museu de Belas Artes, com sua impressionante coleção. E vi uma peça com Luís Melo, a excelente “Ausência”, no Sesc Ginástico. Entretanto, para que não digam que só me interesso por comida e arte, confesso que suspirei diante da paisagem. Posei para fotos em praias, calçadas e morros. Em Copacabana, encontrei um “artista da areia” prodigioso, embora excessivamente eclético: ao lado de palmeiras e cristos redentores, ele esculpia um rosto muito parecido com o de Rubem Fonseca... No Jardim Botânico, tive os maiores encantos – além das orquídeas e bromélias, vi a exuberante sumaúma, árvore de Tom Jobim. Bem perto do chafariz, ainda havia o curioso tronco oco onde D. João VI se escondia, sempre que tinha pesadelos com Napoleão.
         Mas talvez o passeio para Niterói, rumo ao Museu de Arte Contemporânea, tenha sido o mais intrigante, pela tábua de restrições fixada na balsa. “Proibido cantar e fazer pregações religiosas” e “proibido jogar pôquer dentro do navio” eram exemplos do caráter carioca? Preferi achar que não – e também olhei para o outro lado, ignorando as manchas de óleo na Baía da Guanabara. No último dia de viagem, eu já não veria muita coisa, literalmente. Um pombo roubou os meus óculos, no Largo do São Francisco; saiu voando com a armação entre as garras, e por pouco não fiquei caolha como a estátua de Camões bem pertinho dali, no Real Gabinete Português de Leitura. Voltei míope e arranhada, mas decidida a retornar. O Rio de Janeiro merece novos roteiros e emoções, e estarei preparada!

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo)




terça-feira, 9 de outubro de 2012

Eleiçõe$

Fotografei estes grafites no Largo da Carioca, algumas semanas atrás. Agora, eles me parecem mais apropriados do que qualquer consideração sobre os resultados eleitorai$...Como é aquela frase? Se correr, o bicho pega; se ficar...

domingo, 7 de outubro de 2012

As afinidades eletivas, por Urik Paiva

As afinidades eletivas
por Urik Paiva

Os gritos dos galos partidários rasgam a manhã para advertir: estamos em período eleitoral. As militâncias soam militares no fazer levantar da cama e pôr o mau humor na rua para ouvir aqueles jingles, os quais acredito terem sido compostos por alguém como Tom Jobim; receber panfletos com a bela cara de políticos que mais poderiam ser concorrentes a Mister Suécia; ser quase fatalmente atravessado por uma carreata ou bicicleata em que os condutores são pessoas tão felizes que é de se acreditar que tenham experimentado todo o Kama Sutra antes de sair de casa; ser abduzido nas esquinas por bandeiras gigantes que ficariam frouxas enrolando a Catedral; ter os tímpanos sodomizados por discursos megafônicos que deixariam Beethoven ainda mais surdo, ele que era completamente surdo; e escutar um sem tamanho absurdo de promessas que talvez envolvam a devolução do Paraíso a Adão e Eva.

Dois amigos votam em candidatos diferentes: perseguem-se pelas ruas empunhando peixeiras; quebram os dentes um do outro com exemplares d’O Príncipe, de Maquiavel. Marido e mulher possuem divergências políticas: cerceiam-se de contato íntimo enquanto não chegam a um denominador eleitoral comum; praguejam-se de Margaret Thatcher e Karl Marx dependendo de como analisam o excedente de produção.

Loirinha fritada pelo sol, Fortaleza está aquartelada pelo que há de mais dantesco na democracia. Nós, os misantropos políticos, que sempre votamos nulo para rainha do colégio e hoje não sabemos quem são os síndicos de nossos próprios prédios, sofremos o bullying de outubro - esse, sim, o mais cruel dos meses – que se aproxima.

Busco uma evasão possível diante das agruras de um tempo que poderia ser belo em vez de bélico. Ainda há rei em Pasárgada? Porque se houver prefeito, há também campanha e não será possível escapar do perturbador bochincho eleitoral.

A solução para meu ranço vem no correr de um exercício à la realismo fantástico. Dentro da biblioteca, o mais prolífico dos refúgios, sou o (e)leitor que recruta seu rol de afins. Tire o seu título de eleitor do caminho que eu quero passar com meu relicário ficcional.

A overture de um intrigante fenômeno mental se dá quando penso em Iracema, signo literário de nossa terra, oferecendo-se à governança da capital cearense. O Partido Tabajara poderia, caso deixe de lado as desavenças políticas, se unir a toda a nação Tupi e conseguir bastante tempo de televisão para o horário eleitoral. Os mais conservadores não vão aprovar a inclinação da virgem à liberação do consumo de alucinógenos, como o Segredo da Jurema. Enquanto os mais liberais considerarão um retrocesso a militarização da Guarda Municipal com arco e flecha.

A figura da personagem de José de Alencar se desfaz em minha mente, dando lugar ao discurso inflamado de uma Maria Moura sob o sol da Praça do Ferreira a instigar toda a sorte de mulheres a um levante feminista derradeiro, para aflição do eleitorado masculino. Para deixar a chapa um tanto mais polida, mas sem perder o caráter enfático, o arranjo partidário poderia incluir a Capitu de Machado de Assis, sendo a dissimulação dos olhos de ressaca um fenômeno não raro na política. A mulher de Bentinho, através da condição do esposo, poderia alavancar muitos votos naquela região populosa do José Walter, cujos chavelhos dos homens são vigorosos indicativos de um determinado status quo.

De Machado, ainda cabe considerar, para nosso inusitado pleito, Simão Bacamarte, defensor pétreo do equilíbrio e da normalidade. Entre suas propostas, a ampliação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPES), variando-os tematicamente: o CAPES para os perigosamente descuidados, para os excessivamente gulosos, para compulsivos sexuais, para leitores de Paulo Coelho, para pretendentes a ascensoristas etc.

Retrocedendo aos primórdios do cânone literário ocidental, temos, do Partido Homérico, o heroico Odisseu, que promete construir faixas de trânsito exclusivas para quem está voltando de Ítaca e acabar com o problema da superlotação do transporte público com enormes cavalos de madeira que comportariam toda a massa produtiva. Não teríamos o Cavalo de Tróia, e sim o Cavalo do Mucuripe, o Cavalo do Bom Jardim, o Cavalo da Serrinha etc.

Um mau candidato seria o sanguinário príncipe Hamlet, que nem numa surpreendente conversão ao republicanismo poderia dar certo como nosso alcaide, haja a quantidade de interesses pessoais que arrolaria à máquina administrativa. O que daria muito sentindo à afirmação: Há algo de podre no Município de Fortaleza. Mas não restam dúvidas de que Horácio, sempre lúcido, pudesse ocupar com louvor alguma secretaria.

Também não seria acerto da cidade eleger Pinóquio como prefeito. Além de imaturo e ambicioso, este cara de pau possui uma nociva apetência ao embuste. Talvez mentisse tanto que seu nariz crescesse do Paço Municipal ao Terminal do Siqueira.

O caso Lewis Carrol é intrigante. Se por um lado há a débil e inexperiente Alice, boa de coração, mas cujo programa de governo é o mais fora da realidade possível, apresentando uma cidade inexequível, tem-se por outro o Coelho Branco, cuja promessa de terminar todas as obras no tempo certo soaria agradável ao eleitor alencarino.

Compondo a lista dos candidatos mais sérios e comprometidos, há o surpreendente Agilulfo Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, mais conhecido como O Cavaleiro Inexistente, que, segundo o romance de Italo Calvino, era o mais austero dos paladinos de Carlos Magno. Sua característica marcante é que, dentro da deslumbrante armadura branca, ele simplesmente não existe. Trocando o metal da armadura pelo linho do burocrático paletó, o nosso Prefeito Inexistente faria uma gestão de visível competência fiscal, digna do panteão de honra do Portal da Transparência. Literalmente. 
 
Do Novo Testamento para as urnas de nossa capital. Jesus Cristo é de longe o campeão das promessas miraculosas. Caro eleitor, cara eleitora, este homem não vai transformar a rua da sua comunidade na Champs-Élysées, não vai despoluir o canal do seu bairro andando por cima das águas, não vai liberar espaço no São João Batista ressuscitando os mortos, não vai multiplicar seu mercantil, não vai dobrar sua cerveja no bar. Este homem, assim seja, talvez nem passe das prévias com Barrabás.

Bem à esquerda do espectro político, Oliver Twist garante governar para os miseráveis, ampliando o acesso a programa de inclusão social, o que deixará a classe média da Regional II um tanto descontente. Além disso, seu primeiro escalão seria todo composto por outros órfãos de Dickens.

À deriva em pensamentos surreais, imagino um jovem Werther que, abismado com o déficit público, cometeria suicídio nos primeiros dias de mandato. Mil e uma propostas para sobreviver em Fortaleza, este poderia ser o programa de governo de Sherazade. O Pequeno Príncipe, aparentemente ingênuo e pueril, talvez seja na verdade um corrupto, fazendo valer a máxima “O essencial é invisível à prestação de contas”. Caso chegasse à chefia do Executivo, o autocomplacente Leopold Bloom criaria mais um feriado municipal, o Bloomsday, em 16 de junho. Hannibal Lecter promete acabar com o problema da fome em Fortaleza. E, seja lá qual for o resultado das eleições, Emma Bovary implora a nomeação do Doutor Charles, seu marido, como plantonista do IJF, deixando-o pouquíssimo tempo em casa.

Agradando a todas as classes sociais, a Mulher do Médico, aquela que permaneceu enxergando diante da terrível epidemia de cegueira relatada por José Saramago, pode ser a grande surpresa destas eleições. Mantendo-se lúcida em meio à aflição coletiva, ela prestou-se, como servidora empossada pelas circunstâncias, a guiar os cegos pelos dissabores de um mundo autoconfinado. Mas nós não somos cegos, retrucariam os opositores da candidatura, que teriam apenas um constrangedor silêncio como réplica.

Chegamos ao fim do conclave fictício com a condenação a candidato do desavisado Joseph K., o bancário que, em O Processo, é acusado de cometer um crime a ele desconhecido. O personagem talvez expressasse o mesmo assombro ao ser avisado de que foi repentinamente declarado, por ampla maioria democrática, prefeito da cidade, sem nem mesmo saber que estava concorrendo. A democracia tem dessas arbitrariedades.

Curiosamente, é Kafka quem me retira de minha própria invenção, antes mesmo do findar do pleito, e me faz retornar a Fortaleza real, mas não menos absurda que esta outra de dentro do papel. Não seriam essas duas Fortalezas uma só? No fim das contas literárias, deixo à cidade a responsabilidade do espetáculo narrativo de contar a si mesma. 
 
(crônica publicada hoje no jornal O Povo. Confiram também no blog do autor, abstrato armado

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A musa dos olhos impossíveis

Quando estive na galeria dos pintores brasileiros, no Museu de Belas Artes do Rio, fiquei absolutamente impressionada com a série de quadros do Pedro Américo em que aparece uma mesma figura feminina, de olhos impossíveis. No detalhe da tela acima, ela aparece no papel de Joana D'Arc, e em vários outros quadros assume personagens as mais diversas. Quem teria sido essa modelo que posou para o artista? Será que ela realmente possuía esses olhos anatomicamente absurdos (apesar de belos, ou exóticos)? Como Pedro Américo era muito talentoso, não posso crer que ele tenha "exagerado" ou "errado" a fisionomia dessa mulher, ainda mais quando vemos o seu rosto, idêntico (e até mesmo envelhecendo, conforme a cronologia das pinturas), na série dos quadros ali expostos.
Estou remoendo o mistério dessa identidade... Se alguém tiver qualquer pista, por favor, me ajude!

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Literatura russa

De novo, mergulho na arte eslava - dessa vez, com a Nova antologia do conto russo, publicada pela editora 34. Poucas coisas são tão boas para relaxar...

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Os mistérios


OS MISTÉRIOS


Todo criador de uma obra artística tem diante de si inúmeros componentes secretos por desvelar. Isso ocorre no instante decisivo de uma fotografia, que surge como num milagre (quase do mesmo modo com que surgem as palavras, para o laço do texto literário). Ocorre também na forma escondida sob a matéria-prima da escultura ou da tinta, ou nos sons ainda não modulados em música, nos movimentos que depois se transformarão em dança... Em qualquer arte existe uma zona misteriosa, não formulada racionalmente. Os pesquisadores constroem depois teorias e pensamentos em torno do ofício criador: algumas dessas questões são originais, inteligentes, científicas; outras não passam de meras curiosidades ou palpites.
Entretanto, por mais que as reflexões se tornem interessantes, insubstituível mesmo – e relevante – é sempre a arte. E há momentos em que se deve admitir que ela (não apenas como processo, mas também como produto) permanece com suas áreas inexplicáveis. Uma obra acabada não se submete a fórmulas ou expectativas, não se molda em previsibilidades. Este é, verdadeiramente, o seu ponto singular, nunca a sua fragilidade.
Costumo remoer tais ideias quando, na posição de apreciadora, caio na tentação de classificar meus sentimentos ou juízos diante de um espetáculo, uma pintura ou um filme. A tendência racionalizante é o grande vício humano, e eu tento experimentar às vezes o caminho contrário, de um olhar inocente, um contato que seja pura fruição. Ora, esse exercício tem me alertado para a necessidade de descartar explicações artísticas inclusive para as obras que tento fazer.
Sinceramente, nunca escrevi ou fotografei com o que se pode chamar de postura técnica. A paixão me domina, na hora de criar. A “frieza” profissional é posterior, no trabalho com diferentes versões, revisões, escolhas – e é óbvio que essa etapa é importantíssima, para amadurecer e consolidar o que se pretende. Entretanto, mal o processo termina, já me dedico a um novo projeto, um outro arrebatamento. A incerteza desse percurso é, talvez, o traço mais atraente e vertiginoso, aquilo de que não abro mão – e jamais abrirei.
A teoria pode ter prestígio e interesse para certas horas ou finalidades, mas somente o impulso prático inventa desafios. Quando um pensamento ou estilo estagna, isso pode parecer confortável, à primeira vista. Dá a impressão de um objetivo alcançado – mas essa é uma ilusão nociva. Torna-se estéril todo artista que adota uma fórmula ou molde para encaixar produtos autômatos, livres de dúvida e sofrimento criador. Da mesma forma, para o público, perde-se o impacto, quando se tenta substituir uma obra por sua intencionalidade. A velha pergunta sobre “o que o autor quis dizer” esconde, em nome de um simplismo tranquilizador, a mutilação de todas as riquezas que não podem ser traduzidas ou expressas a não ser daquela maneira que o autor adotou.  
Estou convencida de que, no território das reflexões, nada é mais danoso que um raciocínio fechado, cem por cento correto – assim como, em arte, nada é mais descartável que uma obra sem mistérios.

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo)

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Estocolmo


ESTOCOLMO

            Não, esta não é outra crônica de viagens – embora eu deseje, claro, conhecer a “Veneza do Norte” e algum dia, quem sabe... Mas hoje o tema vem sugerido por um velho episódio policial: o Assalto de Norrmalmstorg. Em 1973, bandidos suecos mantiveram, durante seis dias, vários reféns num banco – e o resultado foi que, após a liberação, as vítimas se mostraram solidárias com os agressores, recusando-se a incriminá-los. Desde então, os psicólogos adotaram o termo “síndrome de Estocolmo” para validar um comportamento de identificação emocional que pode ser extremo.
            Recordo esses fatos por causa de amigos que me contam histórias curiosas. A tal síndrome surge em muitas delas, como um sinal de carência comovente. De que outra forma poderíamos entender a solidão de D. Matilde, uma senhora de 80 anos que foi esfaqueada na Beira-Mar por um menino e, ainda a caminho do hospital, mostrou-se interessada pelo destino do infrator? Ela citava aos paramédicos uma série de instituições de proteção à infância delinquente, enquanto eles tentavam estabilizar as hemorragias.
Mal abandonou os curativos cirúrgicos, D. Matilda procurou a polícia para saber o paradeiro do menino. Conseguiu adotá-lo após uma enorme burocracia, e pode-se dizer que viveu feliz com ele, até que o garoto voltasse às drogas e vendesse todos os eletrodomésticos da casa para gastar no vício. A velhinha não tinha condições financeiras de repor os objetos, então se acostumou a viver sem telefone, geladeira, fogão, rádio, TV e secador de cabelo – mas aí o menino, dizem que já “acostumado com as mordomias”, declarou que não havia sido adotado para morar num lugar sem máquina alguma e, sendo assim, voltava à rua, onde pelo menos era livre.
Mais um episódio de carência e solidão ocorreu no ano passado, quando uma brasileira em viagem foi sequestrada por um beduíno egípcio. Ela ignorou as motivações políticas do ato, para interpretá-lo de um modo lírico. Apaixonou-se pelo rosto moreno, o turbante claro, os muitos panos que cobriam aquele corpo masculino. Ficou profundamente desapontada quando o beduíno a soltou, após negociações diplomáticas. Para falar a verdade, ele teve de amarrá-la no deserto, para não ser seguido pela moça inconformada. Não foi, portanto, um sinal de crueldade, a forma como a brasileira foi descoberta, com pernas e braços atados. Dizem que até hoje a jovem pede para dormir assim, presa por cordas: ainda sonha que o beduíno vem buscá-la.
A síndrome de Estocolmo rende histórias de amor – nem todas fracassadas, como as que vimos aqui. Há casos em que agressor e vítima se completam numa relação indestrutível, apesar de doentia. Em homenagem a esses afetos estranhos, escolho uma trilha sonora adequada. Termino esta crônica ao som de Muse, com o impacto da sua “Stockholm Syndrome”: This is the last time I'll abandon you/ And this is the last time I'll forget you/I wish I could...

Tércia Montenegro (crônica publicada hoje no jornal O Povo e disponível também no respectivo site)

domingo, 9 de setembro de 2012

Russel & Ripley

Continuo com a leitura dos surrealistas (e, de tanto ler autores franceses em edições de língua espanhola, percebo como é cada vez mais urgente que eu planeje uma viagem para a França...). Após René Crevel, escolhi Raymond Russel, cujo Locus Solus me faz lembrar As Hortensias, do Feliberto Hernández, que comentei há alguns dias. A mesma ideia de um lugar doméstico dominado por engrenagens bizarras, ou por fetiches absurdos criados por seus donos, impera nos dois livros. Ora, assim também é inevitável que eu recorde minha recente visita ao México, com o seu museu Ripley. Antes de embarcar para a terra de Frida Kahlo, deixei uma postagem, neste blog, sobre o jogo das coincidências que me atraía a conferir esse museu, obrigatoriamente. Depois, de maneira que considero imperdoável, silenciei sobre o assunto, e apenas alguns amigos próximos souberam do motivo: o museu me pareceu mais engenhoso do que mágico, feito para agradar a mentalidades juvenis. Surrealidade me parece coisa bastante séria, embora não deixe de ser engraçada, às vezes; o problema é tratá-la com um apelo promocional exagerado (coisa que esse museu certamente faz). Mas esqueçamos o infame lado comercial, para que as boas recordações retornem...Durante a visita, fiz uma lista de peças e informações curiosas. Acompanhem abaixo a síntese do acervo do museu Ripley:
- um fetiche xamã de mandíbula de cervo;
- sandálias chinesas, da dinastia Manchú (com a dimensão do pé feminino ideal, que não devia ultrapassar 6 cm!);
- ovos de avestruz (um único ovo pode alimentar 12 pessoas e sua casca serve para transportar água no deserto);
- pinturas feitas em teias de aranha;
- uma réplica da Mona Lisa feita com 64 fatias de pão tostado (acho que essa nem o Vik Muniz faria...Confiram na imagem abaixo)
- um vestido feito com cabelo humano (argh!);
- uma pintura diatômica (fique sabendo que os diátomos são algas minúsculas que se encontram nas gotas da água do mar!)
- um vinho de Hong Kong, feito com fetos de rata (aaargh!).
- a foto de um homem que nasceu com duas pupilas em cada olho.
Se essa coleção não for la crème de la crème do Surrealismo, eu não sei o que pode ser...Locus Solus, do Russel, traz uma narrativa que "passeia" por um ambiente semelhante ao do museu Ripley. Ficaram interessados?




sexta-feira, 7 de setembro de 2012

René Crevel

Acabei de ler (novamente em versão de língua espanhola, resultado de uma viagem a Buenos Aires, dois anos atrás) Babilonia, de René Crevel. O livro é um marco da prosa surrealista, mas não parece "descosturado" como Nadja, por exemplo. Neste romance, Crevel associa os absurdos à mentalidade de uma garotinha - e digamos que o vertiginoso surreal fica, por assim dizer, um pouco justificado. No decorrer da história, o relato vai se tornando mais e mais bizarro e engraçado, além de poético. Há passagens lindas, como esta que traduzo: "(...) amanhã cruzará a canícula uma mulher com um xale de vento. Será a forasteira no umbral das ruas. Seu companheiro, o pai, terá os olhos amarelos, como se estivessem feitos de um metal que não é ouro. Os farrapos colocados nas janelas, em honra a este casal, vão estalar com todas as suas cores, e o verão, por um dia, por um único dia que nunca poderão esquecer as meninas que o tenham vivido, o verão não suportará a mínima precaução de penumbra." (pp.106-7)
A vida de Crevel é outra história de exagero e dramaticidade. Não dá para resumir; quem tiver interesse, busque mais informações. E quem quiser, também, pode conferir os capítulos de uma obra sua, Mon corps et moi, na língua original. Vejam no site http://melusine.univ-paris3.fr/CrevelMonCorps.html

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Roberto e Felisberto

Acabei de ler As Hortensias, do Felisberto Hernández, na linda edição da Grua em parceria com a Editorial Yaugurú, uruguaia. A sensação de reviver o estilo deste autor tão singular, que eu havia conhecido com os contos de O cavalo perdido e outras histórias, foi ótima! E agora creio que consegui formular o que antes havia intuído: uma semelhança de atmosfera que lembra muito a literatura de Roberto Arlt. Não se trata de proximidade através de temas ou de linguagem; é uma espécie de visão de mundo que os dois autores partilham. Ambos conhecem os absurdos que se escondem na realidade e sabem narrá-los com total descontração e simplicidade, mas sem perder o bom toque de ironia. Estou mencionando uma impressão que me veio, e que não cheguei a ver corroborada em nenhum estudo, mas para mim isso é muito forte: Felisberto Hernández e Roberto Arlt são irmãos literários. Façam a experiência de ler As Hortensias e depois passem para Os sete loucos ou O lança-chamas, ou vice-versa. Vocês estarão no mesmo universo criativo. Não por acaso, os dois autores nasceram no princípio do século XX, em países vizinhos, de mesma língua. Se chegaram algum dia a se encontrar, para mim é uma incógnita - mas não preciso dessa certeza para colocá-los bem juntos, na biblioteca.

II Colóquio Cearense de Semiótica

Amigos,

Estão abertas, até o próximo dia 10, as inscrições para o II Colóquio Cearense de Semiótica, que vai acontecer nos dias 17 e 18 de setembro, na Universidade Federal do Ceará. O evento está sendo organizado pelo grupo Semioce e trará grandes pesquisadores da área, como o professor Sémir Badir, da Université de Liège, e os professores Ivã Carlos Lopes e Waldir Beividas, da USP, dentre outros. Quem gosta de semiótica greimasiana não pode perder! As vagas são limitadas! Veja mais informações no endereço http://ufcsemiotica.blogspot.com.br/

sábado, 1 de setembro de 2012

Nossa Cidade

Amigos,

Agendem: dia 15 de setembro estreia a peça Nossa cidade, com direção de Thiago Arrais. Ficará em cartaz sempre às 20 h dos sábados, no Passeio Público, até o dia 20 de outubro. Cliquem no cartaz abaixo para ampliá-lo.